maio 03, 2012

A pintura antiga [02.05.2012 Bremen – Alemanha]


As palavras vão-se amontoando junto às portas desta casa de corvos – como velhas histórias que se esquecem ou que se vão renovando conforme a memória as escolhe recordar. Provavelmente os dias que se irão suceder aos anteriores irão desenhar outros quadros na tela que não lhes pertenceria se eu soubesse como recordar todos os dias que não quero esquecer.
João Rui

The old Painting [02.05.2012 Bremen – Germany] The words keep piling up at the gates of this house of ravens - like old stories that you forget, or that will be renewed according to how your memory chooses to remember them. Probably the days succeeding the previous will draw other pictures on the canvas that wouldn't belong to them if I knew how to remember all the days I do not want to forget. João Rui

maio 02, 2012

Crow Covered Tree [01.05.2012 Bremen – Alemanha]


"I remember I woke to find me sitting at the end of the bed
My fingers were calm and resting under my chin
My hands had been waiting to wake me from the strangest dream"

maio 01, 2012

O mar do norte [30.04.2012 Emden – Alemanha]


O mais a norte que encontrei foi o teu mar. Aguardando-me com insuspeitos laivos de Verão, estas margens receberam-nos os passos não como estrangeiros, mas como pródigos filhos, a casa enfim retornados. 
Que doce aroma que trouxe ontem este vento do norte...
João Rui


The Northern Sea [30.04.2012 Emden – Germany] In the furthest to the north, I found your sea. Awaiting me with unsuspected shades of summer, these shores received our steps not as foreigners, but as prodigals sons, at last returning home. What a sweet aroma, this northern sea did bring me… João Rui

abril 30, 2012

The Strangest Friend [29.04.2012 Achim – Alemanha]

"We’re all strangers here, there’s rust in our feet. From the lies we've been told...
There’s a silence to every man, that knows more than he does.
He’s the strangest friend that we could pray for - he knows too much"

abril 29, 2012

Da partida impossível [28.04.2012 Schwanewede – Alemanha]


Porque se me embarga a voz cada vez que murmuro o teu nome? Talvez ainda seja cedo demais para essa batalha. Talvez porque a certeza da tua partida ainda não encontrou o seu lugar no meu coração. Que magnífico porto para tão desolados destroços. Quantas vezes terei que me despedir de ti até que te possa deixar partir? Será mesmo necessário aguardar por tão miserável companhia que é a velhice, para na tua idade encontrar espaço para a tua partida?
Que estranha hora a saudade do teu sorriso escolheu para me visitar
João Rui


Of the impossible departure [04/28/2012 Schwanewede - Germany] why does my voice shiver every time I whisper your name? Perhaps it is still too soon for this battle. Perhaps because the certainty of your departure has not yet found its place in my heart. What a magnificent harbor for such desolate wrecks. How many times do I have to tell you goodbye before I can let you go? Is it really necessary to wait for such a miserable companion as old age, to find space for your departure? What a strange hour that the longing of your smile chose to visit me. João Rui

abril 28, 2012

A escuridão que nos acompanha [27.04.2012 Bremen – Alemanha]


Somos como o mar – e vamos sobrevivendo bem perto da superfície, onde tudo acerca do que somos é claro como as águas que as marés não conseguem fustigar. Mas o olhar atento que perscruta um pouco mais além (ou em profundidade) revela-nos o intangível do espaço em que o invisível existe dentro do nosso ser.
E então recordo-me das tuas palavras “nem nas minhas mãos eu confio” – porque delas é seu mestre a escuridão que em boa verdade somos. Talvez nunca sejamos menos que essa escuridão e todas as outras adições de que nos disfarçamos sejam apenas fantasia ou esperança de luz.
Mas sem esses vestidos, serás sempre um estranho à curiosa dança que a tua escuridão condena.
João Rui


The darkness that accompanies us [27.04.2012 Bremen - Germany] We are like the sea - and we survive well near the surface, where everything is about what we are is clear as the water that tides cannot harass. But the watchful eye, peering a little further (or in depth) reveals the intangible space where the invisible exists within our being. And then I remember your words “Even in my hands I do not trust" – for in truth, their master, is the darkness that we really are. Maybe we are never less than this darkness, and all other additions are just fantasy in disguise or hope of light. But without these dresses, you will always be a stranger to the odd dance that your darkness condemns. João Rui

abril 27, 2012

A viagem dentro de mim [26.04.2012 Hannover – Alemanha]


Terminamos a noite com uma simples frase de um coração talvez mais quebrado que o nosso: “obrigado pela vossa música. Não conseguem imaginar o quanto viajei dentro de mim enquanto nos entregavam as canções. Muito obrigado”.
E depois disto, não há nada mais que eu possa escrever.
João Rui


The journey inside me [26.04.2012 Hannover – Germany] We finished the night with a simple phrase from a heart broken. Probably more than ours: "Thank you for your music. You cannot imagine how much I traveled inside me while you were playing your songs. Thank you so much." And after this, there's really nothing more I can write. João Rui

abril 26, 2012

O porto dos destroços [25.04.2012 Wilhelmshaven – Alemanha]


Como se fosse possível, o sol veio visitar-me com inesperada veemência – e novos companheiros de viagem trouxeram-me oferendas de variegadas origens. Que festim será este, celebrado entre marés de maçapão, envolto em cordas de guitarra?
João Rui


The harbor of wrecks [25.04.2012 Wilhelmshaven – Germany] As if it were possible, the sun came to visit me with unexpected vehemence - and new traveling companions brought me offerings of variegated origins. What is this feast, between tides of marzipan, wrapped in guitar strings? João Rui

abril 25, 2012

O sorriso por entre a chuva de Vinyl [24.04.2012 Bremen – Alemanha]


Nesta noite de chuva em que me veio encontrar a memória de outra vida, chegou-nos às mãos outra reinvenção do Drunken Sailors & Happy Pirates. Desta vez em Vinyl. Novo desenho do Luís Belo e nova masterização do João P. Miranda.
Muchas gracias Raúl y Grabaciones de Impacto! este es un gran sueño!
João Rui
The smile through the Vinyl rain [24.04.2012 Bremen - Germany] This rainy night, while the memory of another life came to visit me, our hands received another reinvention of Drunken Sailors & Happy Pirates. This time is in vinyl. A new design by Luís Belo and a new Mastering by João P. Miranda. Thank you so much Raul and Grabaciones de Impacto! This is a great dream! João Rui

abril 24, 2012

A quietude dos passos [23.04.2012 Bremen – Alemanha]

Se há dias em que a estrada nos embala até ao estertor do dia, outros os há em que o seu balouçar é feito de tão poucas palavras.
João Rui
The quietness of the steps [23.04.2012 Bremen - Germany] If there are days when the road cradles us unto the death of the day, there are others where its swing is made of so few words. João Rui

abril 23, 2012

A temperatura do sangue [22.04.2012 Hannover – Alemanha]

Quis hoje a fortuna que hoje a chuva fosse a nossa companheira de viagem. E que magnífica companhia. Ornamentada com anéis de electricidade, seguiu-nos durante todo o caminho até Hannover.
Mas como dizia, o termómetro das noites é outro. Contar-te-ia a temperatura que estava se houvesse forma de saber qual o ponto de ebulição do sangue. Talvez haja, mas não dentro do coração.
João Rui

The temperature of the blood [22.04.2012 Hannover – Germany] Today fortune made the rain our traveling companion. And what a wonderful company. Ornamented with rings of electricity, it followed us all the way to Hanover. But as I said, the thermometer of the nights is of another kind. I would tell you of the temperature if there was a way of knowing the boiling point of the blood. Perhaps there is, but not inside the heart. João Rui

abril 22, 2012

Da Janela do quarto [21.04.2012 Bremen – Alemanha]

Dizem-me que também aqui é primavera; e que este inverno, como eu lhe chamo, é apenas memória minha das portas do mar. Talvez assim seja: da janela deste meu quarto, os pássaros têm estado a amontoar penas e sonhos e migalhas de árvore nos galhos mais altos delas – como se fossem ninhos. Mas de cada vez que assomo ao parapeito, os meus olhos são recebidos por sombras e véus negros de corvos ruidosos. E no olhar deles antevejo o seu engenho; passamos assim estas manhãs primaveris, escondidos entre a sua penujem ainda mais negra que esta solidão. Não fossem estas noites aquecidas pelo verão das vozes de quem nos veio ouvir, também eu pertenceria ao seu ninho – e seria eu o estranho que me receberia de negro.
João Rui


From the room window [21.04.2012 Bremen - Germany] They tell me that here is also spring time; and that this winter, as I call it, is only my memory from the doors of the sea. It may be so: from the window of my room, the birds have been piling feathers and dreams and crumbs of trees in their upper branches - like nests. But every time I come to the parapet, my eyes are greeted by the shadows and black veils of noisy crows. And in their stare I envision their skill; this is how we get by these spring mornings: hidden among their feathers even darker than this solitude. If it were not for these nights warmed by the summer voices of those who came to hear us, I would also belong to their nest - and it would be I, the stranger that would receive me in black. João Rui

abril 21, 2012

O Bosque [20.04.2012 Osterholz-Scharmbeck – Alemanha]


Por estranho que pareça, os trilhos que hoje percorremos em torno do palco, eram feitos de terra e ornados por grinaldas de pássaros. E de tudo o que os olhos poderiam daí abarcar, guardaram lugar para um barco negro: o Bredbeck Geist, atracado em terra seca, como se fosse uma casa para os corvos da floresta.
Rodeados por eles, esperámos até ao momento em que no grande salão não houvesse espaço para mais uma única pessoa. E assim partimos quando esse fantasma fincava os dentes no leme.
João Rui


The forest [20.04.2012 Osterholz-Scharmbeck – Alemanha] Strange as it might seem, the paths we took to the stage today, were made of earth and ornamented with a garland of birds. And of all the eyes could see from there, they saved a place for a black boat: the Bredbeck Geist. Standing there in dry land, as if it was a house for the crows of the woods. Surrounded by them, we waited in the grand saloon, until there was no place for a single person more. And like this we sailed, while this ghost was sinking his teeth in the rudder. João Rui

abril 20, 2012

A suspensão do segredo [19.04.2012 Groningen – Holanda]


Como poderia eu explicar-te o delírio que ocorre à construção do meu bom assassino? Tenho a certeza que existe uma certa matemática que assiste a todo este processo da construção de uma canção. Mas quanto a mim, o que mais posso é deixar-te observar as notas de rodapé que abandonei na solidão do caderno negro – e que agora aí aguardam pacientes o seu lugar.
João Rui


The suspension of the secret [19.04.2012 Groningen – The Netherlands] How could I explain to you the lingering delirium of the construction of my good assassin? I am sure that there is some math that assists this entire process of building a song. But as for me, the most I can do is to let you look at the footnotes I abandoned in the solitude of the black book - and where they patiently await their place. João Rui

Do Banquete [18.04.2012 Oldenburg – Alemanha]

Acostumei-me a nada aguardar do pouco que a vida me poderia reservar. Então, cada golfada de ar é um banquete e cada pétala um manjar. Assim, as parcas oferendas que me concede o engenho nesta antecâmara de silêncio, guardo-as debaixo da pele até que o sangue as seduza ao seu fim.
Hoje, a noite que nada me prometera, trouxe-me mais do que eu aguardava – e tivemos que retornar a subir os degraus do palco porque os aplausos do que seria o fim não nos permitiam outra casa.
João Rui
Of the banquet [18.04.2012 Oldenburg – Germany] I’ve grown accustomed to wait nothing from the little that life could have in store for me. So, every breath of air is a banquet and every petal a feast. Thus, the small offerings my mind allows me in this room of silence, I keep them under my skin until the blood seduces them to their end. Today, the night, who had promised me nothing, brought me more than what I was waiting for – and we had to go back up the stairs to the stage because the applauses of what would be the end , did not allows us any other home. João Rui

abril 18, 2012

O Cais [17.04.2012 Bremen – Alemanha]

Junto ao cais de Bremen há barcos que conhecem o peso da ausência marítima: onde os pássaros pendurados nos mastros entregam as suas penas ao vento: oscilando como resquício de incêndio e desaparecendo cada vez que um dos meus passos sucede o outro. Há também promessa de partida. É sempre junto ao cais que me recordo dos que partiram não por amor ao mar, mas por despeito da terra. É sempre junto ao cais que me recordo dos que partiram. Dos que partiram sem que deles me possa alguma vez apartar.
E como me faltam.
João Rui
The waterfront [17.04.2012 Bremen – Germany] Near the pier of Bremen there are boats who know the weight of the absence of the sea: where birds hanging on the masts deliver their feathers to the wind: oscillating like reminders of fire and disappearing every time one of my steps follows another. There is also promise of departure. It is always by the waterfront that I remember of the ones that departed not out of love for the sea, but out of spite from the earth. It is always by the waterfront that I remember of the departed. Of those who left and of whom I can never depart. And how they are sorely missed. João Rui

abril 17, 2012

O vento de Bremen [16.04.2012 Bremen – Alemanha]


Encontrei no hábito da escuridão o sorriso que me devolveria a ti. E entre os dedos onde se adivinhavam os outros do silêncio, restava-me o ar que te não retornava a mim. Mas o frio que percorria as ruas de Bremen quebrava-se junto à porta do Litfass, onde o calor nos veio entregar o coração.
João Rui
The wind of Bremen [16.04.2012 Bremen – Germany] in the old habit of the darkness, I found the smile that would bring me back to you. And between the finders where one could guess the others of the silence, I had but the air that would not return you to me. But the cold that ran through the streets of Bremen was breaking by the door of Litfass, where the warmth came to gives us her heart. João Rui

abril 16, 2012

De Nul [15.04.2012 Hengelo – Holanda]

Enganaram-me as voltas do vestido deste frio – o vento que se erguia em cada estocada certeira deixou-me acreditar que não haveria silêncio onde içar as velas destas canções. Quão acertado foi o passo neste erro: recebeu-nos em êxtase o coração de Hengelo, no palco do De Nul. E como se isto não bastasse, a insistente turba convidou-nos para outra sala de concertos situada a cerca de 400 metros da primeira. O sorriso do nosso Sebastião e a promessa de uma última despedida foi o suficiente para nos deslocarmos até à segunda sala de espectáculos e reinventar o concerto com outras canções e com instrumentos tão diversos como as histórias entre elas.
E aqui, coisa rara: todos os anos é eleito um poeta da cidade. Este, de cabeça pousada nas mãos agradeceu-nos as histórias. Contou-me também que o edifício era Napoleónico – magnífico! E não o sendo, não menos magnífica invenção.
De coração cheio abandonamos Hengelo, a caminho de outra cidade, noutro país.
João Rui


Zero [15.04.2012 Hengelo – Holanda] The turns of the dress of this cold, deceived me – the wind that rose in each blow led me to believe there would be no silence where to raise the flags of these songs. How certain was the step in this mistake: the heart of Hengelo received us in ecstasy in the stage of De Nul. And as if this was not enough, the insisting crowd invited us to another concert room about 400 meters from the first. Sebastião’s smile and the promise of a last farewell was enough to go there and reinvent the concert with other songs and instruments as diverse as the stories between them. And a rare thing: here, every year the town’s poet is elected: and him, with his head hung on his hands thanked us for the stories. He told me that the building was Napoleonic – Magnificent! And that, not being the truth is no less of a magnificent invention. With our hearts full, we leave Hengelo, heading for another city in another country. João Rui

abril 15, 2012

Fechaduras [14.04.2012 Osnabrück– Alemanha]


Regressamos a Alemanha depois de um breve intervalo em terras Belgas. E com um pé num país, aguarda-nos amanhã ainda outro. E sem esperanto que me possa auxiliar na conquista das vagas da língua, estugo o passo neste parapeito linguístico que ergue fronteiras sem fechaduras.
João Rui
 Locks [14.04.2012 Osnabrück– Germany] We return to Germany after a brief interval in the Belgian land. And with one foot in one country, tomorrow awaits us another one. And without Esperanto to help me in the conquest of the tides of language, I rush my steps in this language railing that lifts borders without locks. João Rui

abril 13, 2012

Lerchenstraße [12.04.2012 Hamburg – Deutschland]


Veio aqui a esta rua visitar-me um sonho antigo – e as mãos, tão alvas como a memória as guarda, conduziam-me por entre as margens deste jardim de tolos; e o vento, parco na sua atenção, fustigava-me os passos. Que embriaguez esta que me esqueceu das horas onde supostamente habitam agora os meus minutos. Mas guardemos para a noite o que dela não soubermos roubar.
Ainda não me tinha esquecido do abraço de Hamburgo que hoje nos voltou a afagar as canções.
Mas ainda aqui voltaremos antes de partir...
Poderá o coração completo achar-se apenas meio, ao adivinhar o sussurro de inesperada valsa?
João Rui

Lerchenstraße [12.04.2012 Hamburg – Germany] An old dream came to visit me in this street  - and the hands, white as my memory remembers them, were leading me through the shores of this garden of fools; and the wind, in its distraction tore away at my steps. What was this drunkenness that made me forget of the hours where my minutes now live. But let’s keep for the night what is of her that we know not how to steal. I had not forgotten the embrace of Hamburg that held our songs tonight once more. But we’ll return to this place before we leave. Can a full heart find himself only half when guessing the whisper of an unexpected waltz? João Rui

abril 11, 2012

Casa [11.04.2012 Bremen – Alemanha]


Enfim chegados a Bremen, que será a nossa casa durante as próximas três semanas. É a partir daqui que partimos para todas as partes; onde viremos descansar o que sobrar do delírio das canções.
Gostava de te poder adiantar mais palavras sobre a cidade, mas a noite já roubava as formas do pouco que os olhos abarcavam nesta chegada tranquila.
João Rui

Home [11.04.2012 Bremen – Germany] At least we arrive Bremen, that will be our home for the next three weeks. ’Tis from here that we will part for everywhere. Where we will come to rest what is left of the delirium of the songs. I’d like to give you some more words on the city, but the night was already stealing the little my eyes could see in this quiet arrival. João Rui

A testemunha [10.04.2012 Nijmegen – Holanda]

Segundo ouvi dizer, aqui a chuva é uma presença constante. É como se fora um colar de pérolas partido em torno do pescoço desta bela terra – e como se lhe faltasse a destreza, as mãos não as impedem de se precipitar sobre este o corpo.
Esta noite, em torno da Távola adoptada cantámos os velhos mitos que nos transformaram os lábios. Talvez tenha transformado o coração das testemunhas. Assim o ouvi dizer ao abandonar este tugúrio na promessa do retorno.
João Rui

The Witness [10.04.2012 Nijmegen – The Netherlands] According to what I heard, here the rain is of constant presence. It’s as though as if it was a broken pearl necklace around the neck of this fair land – as if her dexterity was absent, the hands won’t stop them from falling over this body. Tonight, around this round table, we sung the old myths that transformed the lips. Maybe I have transformed the heart of the witnesses. So I heard as I was leaving this shack in the promise of return. João Rui

abril 09, 2012

Os segredos do gelo [08.04.2012 Bakhuizen – Holanda]

À medida que nos deslocamos para norte vamos encontrando a razão desta neve que ainda não passa de gelo, enquanto os campos de tulipas ausentes aguardam a nossa chegada.
O sorriso de rever o Patrick e a Annette já seria o suficiente para merecer a viagem, mas aguarda-nos um salão repleto dos muitos que assim escolheram celebrar a Páscoa. Que magnífico silêncio ocupava o espaço das flores que aqui adivinhava. E quantas histórias e segredos entre canções encontraram o caminho para o coração de quem aqui veio. Sem palavras que pudessem substituir melodias, urgiram-nos ao palco para uma 19ª canção que nos despediu deste transe.
Momentos antes de abandonar esta segunda casa, o Patrick confidenciou-me um sonho: mas como se um abismo revelasse os seus segredos a outro abismo, cedo conheceram a queda nas profundezas de uma memória feliz.
João Rui

The secrets of Ice [08.04.2012 Bakhuizen – The Netherlands] As we move north, we found the reason why this is still not snow, but ice. Meanwhile the tulip fields await our arrival. The smile of Patrick and Annette would be enough to warrant the trip, but expecting us was a room full of so many who chose to celebrate Easter in this fashion. What a magnificent silence occupied the space where flowers should be. And how many stories and secrets between songs found their way into the hearts of those who came here. And since words could replace no melodies, they urged us on stage for a 19th song, that gave us away to the night. Moments before leaving this second home, Patrick confided in me a dream: but as an Abyss reveals its secrets to another abyss, soon they met the drop in the depths of a happy memory. João Rui

abril 07, 2012

Le Gros-Horloge [06.04.2012 Rouen – França]


Como se me pudesse esquecer das horas ou de tudo o mais que se perde entre elas...
João Rui


Le Gros-Horloge [06.04.2012 Rouen – France] As if I could forget the hours or everything else that is lost between them... João Rui

abril 06, 2012

“À la vitesse d'un cheval au galop” [04.04.2012 Mont Saint-Michel – França]


Quis a viagem que viéssemos encontrar o que o mar ainda não levou: e é no tempo que separa uma maré de outra que se encontra a coragem para percorrer as escadas cavadas na rocha.
Talvez que o não leve. Ou talvez isto já seja apenas sonho.
João Rui


“À la vitesse d'un cheval au galop”  [04.04.2012 Mont Saint-Michel – France] As fate would have it, we came to find what the sea has not taken yet: and it's in the time that stands between the tides that we find the courage to go up the steps carved in the rocks. Maybe he won't take it. Or maybe this is already but a dream. João Rui

abril 05, 2012

A casa dos Corsários [04.04.2012 Saint-Malot – França]


Parece que ainda ontem entretínhamos o silêncio da noite com a entrega de novas melodias à eternidade. Aproveitávamos a ausência dos bretões para continuar a construir as canções do conceito do Drunken Sailors & Happy Pirates. Talvez que assim estivesse escrito: que os pianos finais de algumas músicas viessem a ser gravados tão longe da casa de onde temos estado ausentes. 
Mas hoje tudo isso já se tornou memória: o tempo não se demora aqui. A viagem prossegue para norte.
João Rui


The home of the corsairs [04.04.2012 Saint-Malot – France] It seems like only yesterday we were entertaining the silence of the night delivering new melodies to eternity. We took the chance of the absence of Britons to continue building the songs from the concept of Drunken Sailors & Happy Pirates. Perhaps it was written like this all along: that the pianos of some songs were to be recorded so far from the home where we've been absent. But today all this already became a memory: time wastes no more; The journey continues to the north. João Rui

abril 04, 2012

a 50 dias de casa (França, Holanda Alemanha, Suíça, Bélgica, Espanha) [31.03.2012 Bretanha – França]


São 6 países e 35 concertos, o que nos aparta de casa. Então para que não nos falte o ar nos primeiros Km, decidimos partir na madrugada da Primavera.
Avançamos primeiramente para uma casa que bem conhecemos: o Le Galopin, situado em pleno coração da Bretanha. Mas talvez me tenha equivocado no número de países. Talvez sejam sete e não seis, porque como o Fif diz: “a Bretanha é um país dentro de outro país”.
1600km de pouco sol e menos chuva; e sei que a dado momento vamos perder a conta dos km, mas por ora, enquanto o engenho não me falta, vou guardando no coração o número passos que vou contando desde a porta do mar. 
E como se não existisse tempo entre a partida e a chegada, num instante assomamos o palco Bretão para apresentar o corpo deste novo álbum. Esta é terra de marinheiros, mas foi a sua sobriedade que nos obrigou, no fim do concerto terminar, a retornar ao palco três vezes antes que tivesse que anunciar “já não temos mesmo mais canções para vos poder cantar hoje”.
E no espaço onde dormiam as canções que não fazíamos conta de trazer ao palco, ficou o sorriso pela sua súbita chamada. 
“Obrigado” é palavra demasiado curta para conter apenas as palavras que transbordam do coração. 
As outras, guardo-as para a solidão das noites.
Joao Rui



50 days from home (France, The Netherlands, Germany, Switzerland, Belgium, Spain) [31.03.2012 Brittany - France] 6 countries and 35 concerts is what sets us apart from home. So lest we miss the air in the first kilometers, we left by the dawn of Spring. Our first destiny is a house that we know well: Le Galopin, situated in the heart of Brittany. But perhaps I have mistaken the number of countries. Perhaps they are seven and not six, because as Fif says: "Bretagne is a country within another country." 1600km of little sun and less rain; and I know that with given time we'll lose count of the miles. But for now, while skill assists me, I will hold in my heart every single step that I count from the gates of the sea. And as if there was no time between departure and arrival, in an instant we take flight of the stage to present the body of this new album. This is a land of sailors, but it was their sobriety that forced us, at the end of the concert, to return to the stage three times before I had to announce "We don’t have any more songs to sing for you today." And in the space where these unexpected songs slept, there lies now the smile of their unexpected appearance. "Thank you" is a too short sentence to contain just the words that overflow from the heart. The others, I keep them to the solitude of the night. Joao Rui

janeiro 22, 2012

4401Km [21.01.2012 Madrid – Espanha]

De tanto passear em torno de ti, hoje quis o destino que fôssemos direitos ao teu coração. Regressamos ao princípio quando aqui chegámos pela primeira vez; mas talvez que na altura as fronteiras não estivessem tão apagadas como agora que nos recebes realmente como irmãos.
Abandonamos o palco ladeado por tantos olhos onde encontramos os nossos, que maior dádiva não poderíamos daqui levar hoje.
E agora aqui, algures na estrada entre Espanha e Portugal, avançamos através da noite com este sabor Madrileno ainda entre as mãos.
Levamos o coração ainda mais cheio do que aquela sala onde nada mais caberia senão estes Marinheiros Embriagados e estes Piratas Felizes que nos aguardam junto ao mar.
Muchas gracias amigos.
En verdad que vos echábamos de menos.
João Rui
4401Km [21.01.2012 Madrid – Espanha] Of walking so mucha round you, fate had it that today we went straight to your heart. We go back to the beginning when we arrived here for the first time; but maybe then, the frontiers were not as blurred as they are now. Now that you receive us truly as if we were your brothers. We leave the stage that is sided by so many eyes where we find our own, that it would be impossible to take a better gift than this. And now, as we are somewhere in the road between Spain and Portugal, we move through the night with this Madrid taste in our hands. We take our heart even fuller than that room, where nothing else would fit but these Drunken Sailors & Happy Pirates that await us by the sea. Muchas gracias amigos. En verdad que vos echábamos de menos. João Rui.

janeiro 21, 2012

El principio de la vuelta [20.01.2012 Sevilla – Espanha]

Ao entrar em Sevilla, a memória devolve os passos do passado, quando por aqui passámos em 2010 numa viagem que terminou em Málaga e a partir de onde caminhámos para os outros 10 países onde o lobo nos acompanhou. Dessa outra vez, não houve tempo para ouvir o silêncio dos outros. Hoje o coração ouviu esse silêncio… e que magnífico silêncio o desta tripulação que transbordou hoje a nossa embarcação.
As ruas são de outra cor quando a elas voltamos depois destes breves instantes em que o palco nos despe.
João Rui
El principio de la vuelta [20.01.2012 Sevilla – Espanha] As we enter in Sevilla, the memory returns the footsteps of the past, when we were here in 2010 on a journey that ended in Malaga and from where we went to the other 10 countries where the wolf followed us. Then, there was no time to listen to the silence of the others. But today the heart heard that silence ... and what wonderful silence was this, of this crew that overflowed our vessel today. The streets are of a different color when we return to them after these brief moments when the stage undresses us. João Rui.

janeiro 20, 2012

El calor de la nieve [19.01.2012 Málaga – Espanha]

A estrada que nos leva de Múrcia a Málaga é um caminho por entre os montes. Lorca, deserto, silêncio: resquícios de neve que ornamentam o sopé destas montanhas alvas. Seria de esperar o punhal frio nas mãos deste vento, mas o calor que encontramos dentro da sala que nos aguardava é tal, que o corpo se esquece do frémito deste doce inverno. 
João Rui
 El calor de la nieve [19.01.2012 Málaga – Spain] The road that takes us from Murcia to Málaga is a path between the hills. Lorca, desert, silence: wrecks of snow that embellishes the feet of these white mountains. One would expect the cold dagger in the hands of this wind, but the warmth that we found in the room that awaited us was such that the body forgets the trembling of this sweet winter. João Rui.

Las Calles de Neuman [18.01.2012 Murcia – Espanha]

Vamos descobrindo segredos em cada cidade. Nas igrejas que acodem a cada rua com o silêncio que ali nos aguarda e nos olhos de quem decidiu que a nossa chegada era um murmúrio impossível de evitar.
50 Pessoas, talvez mais, cantavam numa única voz o que um piano suspirava. Segredos que se desvelam nas palavras de Paco Neuman que nos confessa a origem das coisas. ¡que ilusión!
Neuman – que curioso sorriso lhe encontro, às voltas nos corredores desta casa que se tornou nossa no coração de quem nos acolheu.
João Rui
Las Calles de Neuman [18.01.2012 Murcia – Spain] We discover secrets in every city. In the churches that come running to every street with the silence that awaits us there, and in the eyes of those who decided that our arrival was a murmur impossible to avoid.50 people, maybe more, in a single voice, were singing what a piano was sighing. Secrets that are unveiled in the words of Paco Neuman, who confesses the origin of things. ¡que Ilusión! Neuman - such a curious smile I find in him, as he turns round in the halls of this house that became ours in the heart of those who welcomed us. João Rui.

janeiro 18, 2012

Por el Mar [17.01.2012 Valencia – Espanha]

Seguimos junto ao mar e ainda sem tempo para aqui repousar mais do que o suficiente para que o coração faça de ti memória graciosa.
João Rui
By the sea [17.01.2012 Valencia – Spain] we follow by the sea, and still without time to rest more than enough at least to let the heart turn you into a graceful memory. João Rui.

janeiro 17, 2012

Gràcies [16.01.2012 Barcelona – Espanha]

Será possível escolher quem à tua embarcação sobe para dela não mais sair? Se aqui repousa tudo aquilo se recorda, de igual forma aqui dorme o que não se esquece. Então somos em partes similares o que somos e o que queríamos ser. Em construção. Em permanente construção. Como esta Sagrada Família, que desde que há memória se encontra envolta desta maquinaria que constrói o sonho num bastidor público. E já tão distante do que era quando foi esboço silencioso. Que estranho mar, este que não me guarda rancor no abandono.
Encontramos Barcelona na companhia dos melhores companheiros de viagem: Dani y Elena, que conhecem as ruas como nós conhecemos as vagas da maré. E esta cidade parece ter-nos encontrado a nós… Gràcies!
João Rui
Gràcies [16.01.2012 Barcelona – Spain] Is it possible to choose whom rises to your vessel not to leave anymore? If here lays all one remembers, it’s also where all one cannot forget sleeps. So we are in an equal measure all we are and all we wanted to be. In construction. In permanent construction. Like the Sacred Family, that is wrapped with this machinery that builds the dream in a public backstage since there’s memory it. And it rests so far away from what it was when it was but a silent sketch. What strange sea is this that does not hold a grudge towards me in the abandonment. We find Barcelona in the company of the best travel companions, Dani and Elena, that know the streets as we know the tides. And this city seems to have found us… Gràcies! João Rui.

janeiro 16, 2012

La caída de César Augusto [14.01.2012 Zaragoza – Espanha]

Há lugares onde a despedida é coisa impossível porque nos acompanham em cada passo os olhos que deixamos para trás. São os escolhos que a memória nos devolve ao entrarmos desprevenidos nos portos que abandonamos; a promessa do fiel retorno. As ruas da cidade são-me tão familiares como se as houvera continuado a calcorrear quando o horizonte continuava a sua história.
À hora que aqui chegamos, a Avenida deste César é apenas silêncio e ausência de alcatrão e gente. Aguardar-nos ia uma sala vazia, não fora esta cidade uma eterna surpresa de todas as vezes que aqui prendemos as amarras. Porque enquanto recolhíamos ao nosso silêncio na rua, a sala foi enchendo até que nem mais um marinheiro caberia nesta embarcação.
Que silêncio doce este que nos vieram ofertar.
Como regressar onde de nunca partimos?
João Rui
 The fall of Augustus Caesar [14.01.2012 Zaragoza – Spain] There are places where farewell is an impossible thing, for with eyes we leave behind follow our every step. These are the pitfalls that our memory returns as we sail back into the ports we left behind; the faithful promise of return. The city streets are as familiar to me as if I had never left them while the horizon was proceeding with its story. By the time we arrive, the Avenue of this Caesar is but silence and absence of people and tar. And if this city was not an eternal surprise every time we hold our moorings here, we would have had an empty room waiting for us. For while gathered in our silence, the room flooded with sailors until there was no more space left in this vessel. T’was  a sweet silence; this that they came to offer us. How does one return to the places one never truly left?
João Rui

janeiro 15, 2012

Bihar arte [13-01-2012 Donostia y Bilbao – Espanha]

Afinal que palavras poderia eu escolher para vos agradecer, senão as vossas feitas minhas? Os lábios desconhecem ainda a pronúncia deste mar cantábrico que nos reconhece no anonimato das ruas e avenidas destas cidades.
- “Gracias por vuestra música”
- Eskerrik Asko.

João Rui
Bihar arte [13-01-2012 Donostia y Bilbao – Espanha] After all, what words could I choose to thank you if not yours that I have taken for my own? The lips are still strangers to the accent of this Cantabric sea that recognizes us in the anonymity of the streets and avenues of these towns. - “Gracias por vuestra música”. Eskerrik Asko. João Rui

janeiro 12, 2012

A estranha valsa [12.01.2012 Oviedo – Espanha]

As mãos do sol não conhecem forma de nos acompanhar nesta dança, onde a neblina se esqueceu das voltas que o seu vestido haveria de entregar para que se adivinhasse o chão deste salão.
Mas à porta desta estranha valsa enredada nas montanhas, aguardava-nos o calor dos olhos de Oviedo.
Gracias.
João Rui
The strange waltz [12.01.2012 Oviedo – Espanha] The hands of the sun have no knowledge of how to accompany us in this dance, where the dark mist forgot the turns its dress would have to give so he could know the floor of this saloon. But by the door of this strange waltz in between the hills, the warmth of Oviedo’s eyes was waiting for us. Gracias. João Rui

janeiro 10, 2012

La línea invisible de la frontera [10.01.2012 A Coruña – Espanha]

Voltamos à estrada que nos leva para longe deste mar, atravessando uma fronteira que já não consegue separar o sabor da terra – talvez nunca o tenha feito e fosse apenas uma linha mal desenhada nas cartas antigas onde se repartiu o indivisível.
Falavam-me do vento frio que aqui encontraria boa forma de me estalar os ossos, mas a torre de Hércules ter-se-á encarregue de o manietar, porque nem vento nem frio me vieram acordar onde dormia, junto do sussurro dos pássaros aninhados à janela do meu quarto.
João Rui
The invisible line of the frontier [10.01.2012 A Coruña – Espanha] We’re back on the road that takes us far away from this sea, crossing a frontier that can’t separate the taste of the earth anymore – maybe it might have never succeeded in doing so and it was nothing but a mere line badly drawn on the old maps where they divided what could never be. They told of the cold that would find a good way to break my bones here, but maybe the tower of Hercules took the ground and turned it into impossible. For neither the wind or the cold came to wake me where I slept, near the whispers of the birds nested by the window of my room. João Rui

dezembro 03, 2011

12 Anos



Não, não parece que foi ontem. Há demasiados baús a transbordar de memórias no convés do nosso coração. Retratos velhos, cordas partidas, laços quebrados e sorrisos… tralhas e tesouros que ali têm a mesma autoridade. Não se escolhe o que se guarda porque as cicatrizes têm uma vontade própria que nos escapa – e nós somos o que resta do que elas nos permitem. Assim se foi construindo a nossa identidade até ao que hoje somos e que já está em mutação como estava antes e estará depois. E enquanto este convés nos for um estranho, nós seremos dele atentos perscrutadores.
Há pouco menos dessa dúzia de anos, o Nuno Ávila escolheu uma K7 com umas canções nossas que havíamos entregue à fita, para passar na rádio: eram as primeiras canções de a Jigsaw. E há algo de mágico e irrepetível nesse momento em que pela primeira vez alguém escolhe a nossa música para com ela preencher as ondas de rádio; e é a nossa canção e não outra que naquele momento nos enfrenta. É como se te arrancassem o coração para que o pudesses ver melhor. E como se não bastasse esta bondade dele, anos mais tarde, o Nuno Ávila é responsável pela edição do nosso primeiro EP From Underskin. Sim, esse mesmo Nuno Ávila da Ruc. Esse da fé no nosso coração que nos comove e nos acompanha em cada acorde. Há um baú com o teu nome dentro do nosso convés e és sempre bem-vindo à nossa embarcação embriagada.
Perdoe-nos quem nos tem acompanhado todos estes anos se hoje decidimos falar apenas deste bom amigo que foi nossa pedra angular quando nem sequer sabíamos por onde iniciar a construção da nossa casa. Obrigado a todos vocês, Marinheiros embriagados & Piratas felizes.
João Rui, Susana Ribeiro, Jorri
a Jigsaw

novembro 01, 2011

Drunken Sailors & Happy Pirates (Júbilo Mortal, por Luís Quintais)

Artwork: Luis Belo


Boa noite,

Este é o nosso novo álbum, que a partir de hoje, dia 1 de Novembro já se encontra disponível para compra, empréstimo ou roubo. É um álbum conceptual acerca do qual poderão descobrir mais e ouvir  um pouco dele através da visita ao nosso novo site www.ajigsaw.net, onde também as letras ficarão hoje disponíveis.
Para comemorar esta edição, oferecemos a música Drunken Sailors and Happy Pirates para download durante o mês de Novembro.
Neste novo trabalho temos o privilégio de ter a Tracy Vandal (Tiguana Bibles) na voz da canção "Lovely Vessel" e o contrabaixo do nosso bom amigo Gito Lima (The Soaked Lamb) na faixa "The Last Waltz". A capa é desenhada pelo Luís Belo e quem gravou, misturou e masterizou foi o João P. Miranda, no Attack-Release Studio em Portalegre.

Mas para vos falar do que este álbum trata, deixamos aqui as palavras do Escritor e amigo Luis Quintais que assina o texto abaixo.

                                                                            Obrigado a todos,
                                                                            João Rui, Susana Ribeiro, Jorri,
                                                                            a Jigsaw.


"Júbilo mortal"
Sobre  
«Drunken Sailors & Happy Pirates» 
de 
a Jigsaw

Um álbum de canções é também um álbum de histórias. É esse o lugar da música? Não sei. A música talvez não tenha lugar. Mas, por vezes, ela tem o peso de uma cortina que se abate violentamente a nossos pés. É assim a música de A Jigsaw. Sempre foi. Como se agitasse o tempo por dentro e o esventrasse. Aventura narrativa? Sem dúvida. Quero porém acreditar que a música ganha porventura o seu lugar, aqui, em A Jigsaw. A voz é grave, o seu grão é o grão da mais antiga voz. Uma história precisa de uma voz, de uma voz que a conduza, gravemente. Balada? João Rui diz-me que a palavra é belíssima. Assim é. E o que era uma balada senão um modo de enfrentar a noite com uma história? A música (que talvez não tenha lugar) ganhava aí o seu lugar outra vez. O seu modo de navegação solitária e ardente. Enfrentar a noite, será a expressão precisa, rigorosa para esta navegação. Não é por acaso que «Drunken Sailors & Happy Pirates» é título desta aventura em mar alto e encapelado de experiências e histórias. Não é por acaso também que a canção homónima termina com este verso: «We must leave now and face the night. The dark and cold night. Goodnight». Dir-se-ia que depois das histórias contadas, assim, sob a forma destas baladas que se abatem a nossos pés como uma cortina pesada, disse, ou antes, como o velame de um navio humedecido duramente por sortidas intermináveis em mar alto, dir-se-ia que, depois das histórias e da voz que as persegue sem remissão, esse enfrentar solitário (com a morte por horizonte) se faz sob o sortilégio de uma forma qualquer de júbilo. Júbilo mortal. Enfrentamos a noite com a certeza de que há uma estranheza em cada um nós, e que toda a amizade (toda a empatia que a música faz alucinar), é um exercício de subjectividades trocadas no território dessa estranheza. Júbilo mortal porque as canções de A Jigsaw se encontram contaminadas pela morte. A morte será o horizonte desse mar tumultuado onde navegamos em estado de graça. A morte surge-nos como o que nos impede o passo, mas a consciência do naufrágio faz da música um trabalho de incursão no perímetro da beleza luminosa dos regressos. Sim, os passos estão truncados pela ferrugem que os toma de assalto, mas, seja como for, embriaguemo-nos de coragem. É sobre isso o exemplo maior desta música de exílios, viagens, fluidas fronteiras, instrumentações imoderadas que é «The Strangest Friend»: «a story to be heard, and a hymn to be sung for all those with dust in their bones / laugh if you will, cry if you must, this is not weakness it’s rust». O quarto que viemos habitar, sensíveis ao nosso próximo fim, ao inevitável naufrágio, abre para uma árvore coberta de corvos. Tudo parece tocado pelo lado mais escuro da noite, e tudo reclama um ponto de vista que não pode ser outro senão o da beleza. O ponto de vista da beleza. Essa rapariga à qual suplicamos presença, regresso, figurações do que só podemos entrever, sabendo que nos deslocamos a passos determinados para o nosso fim. Sim há morte, mas há sempre uma porta que dá para esse ponto de vista. O da beleza que queima, que dança entre o ver e o não ver, entre o visível e o invisível. E sob o signo dessa morte, há uma troca de olhares que nos indistingue, que nos alia: «There I found my death, between your eyes and mine». Qual é o lugar da música? A Jigsaw parece dizer-nos que as mais antigas baladas deveriam voltar para incendiar os nossos dias e as nossas noites, outra vez. Mostrar-nos como há coisas que não se demonstram ou explicam. Dão-se. O lugar da música é afinal o de inventar uma afinidade profunda entre a escuridão recíproca que nos habita. Entre aquele que canta e aquele que escuta, uma mais dolorosa e inevitável canção se desenha. Talvez uma valsa, a última valsa de uma Roma queimada como homenagem às figurações da beleza e da morte que perseguem cada compasso de A Jigsaw.  Nero haveria de se orgulhar deste fogo.

Luís Quintais, Outubro de 2011.