dezembro 03, 2011

12 Anos



Não, não parece que foi ontem. Há demasiados baús a transbordar de memórias no convés do nosso coração. Retratos velhos, cordas partidas, laços quebrados e sorrisos… tralhas e tesouros que ali têm a mesma autoridade. Não se escolhe o que se guarda porque as cicatrizes têm uma vontade própria que nos escapa – e nós somos o que resta do que elas nos permitem. Assim se foi construindo a nossa identidade até ao que hoje somos e que já está em mutação como estava antes e estará depois. E enquanto este convés nos for um estranho, nós seremos dele atentos perscrutadores.
Há pouco menos dessa dúzia de anos, o Nuno Ávila escolheu uma K7 com umas canções nossas que havíamos entregue à fita, para passar na rádio: eram as primeiras canções de a Jigsaw. E há algo de mágico e irrepetível nesse momento em que pela primeira vez alguém escolhe a nossa música para com ela preencher as ondas de rádio; e é a nossa canção e não outra que naquele momento nos enfrenta. É como se te arrancassem o coração para que o pudesses ver melhor. E como se não bastasse esta bondade dele, anos mais tarde, o Nuno Ávila é responsável pela edição do nosso primeiro EP From Underskin. Sim, esse mesmo Nuno Ávila da Ruc. Esse da fé no nosso coração que nos comove e nos acompanha em cada acorde. Há um baú com o teu nome dentro do nosso convés e és sempre bem-vindo à nossa embarcação embriagada.
Perdoe-nos quem nos tem acompanhado todos estes anos se hoje decidimos falar apenas deste bom amigo que foi nossa pedra angular quando nem sequer sabíamos por onde iniciar a construção da nossa casa. Obrigado a todos vocês, Marinheiros embriagados & Piratas felizes.
João Rui, Susana Ribeiro, Jorri
a Jigsaw

novembro 01, 2011

Drunken Sailors & Happy Pirates (Júbilo Mortal, por Luís Quintais)

Artwork: Luis Belo


Boa noite,

Este é o nosso novo álbum, que a partir de hoje, dia 1 de Novembro já se encontra disponível para compra, empréstimo ou roubo. É um álbum conceptual acerca do qual poderão descobrir mais e ouvir  um pouco dele através da visita ao nosso novo site www.ajigsaw.net, onde também as letras ficarão hoje disponíveis.
Para comemorar esta edição, oferecemos a música Drunken Sailors and Happy Pirates para download durante o mês de Novembro.
Neste novo trabalho temos o privilégio de ter a Tracy Vandal (Tiguana Bibles) na voz da canção "Lovely Vessel" e o contrabaixo do nosso bom amigo Gito Lima (The Soaked Lamb) na faixa "The Last Waltz". A capa é desenhada pelo Luís Belo e quem gravou, misturou e masterizou foi o João P. Miranda, no Attack-Release Studio em Portalegre.

Mas para vos falar do que este álbum trata, deixamos aqui as palavras do Escritor e amigo Luis Quintais que assina o texto abaixo.

                                                                            Obrigado a todos,
                                                                            João Rui, Susana Ribeiro, Jorri,
                                                                            a Jigsaw.


"Júbilo mortal"
Sobre  
«Drunken Sailors & Happy Pirates» 
de 
a Jigsaw

Um álbum de canções é também um álbum de histórias. É esse o lugar da música? Não sei. A música talvez não tenha lugar. Mas, por vezes, ela tem o peso de uma cortina que se abate violentamente a nossos pés. É assim a música de A Jigsaw. Sempre foi. Como se agitasse o tempo por dentro e o esventrasse. Aventura narrativa? Sem dúvida. Quero porém acreditar que a música ganha porventura o seu lugar, aqui, em A Jigsaw. A voz é grave, o seu grão é o grão da mais antiga voz. Uma história precisa de uma voz, de uma voz que a conduza, gravemente. Balada? João Rui diz-me que a palavra é belíssima. Assim é. E o que era uma balada senão um modo de enfrentar a noite com uma história? A música (que talvez não tenha lugar) ganhava aí o seu lugar outra vez. O seu modo de navegação solitária e ardente. Enfrentar a noite, será a expressão precisa, rigorosa para esta navegação. Não é por acaso que «Drunken Sailors & Happy Pirates» é título desta aventura em mar alto e encapelado de experiências e histórias. Não é por acaso também que a canção homónima termina com este verso: «We must leave now and face the night. The dark and cold night. Goodnight». Dir-se-ia que depois das histórias contadas, assim, sob a forma destas baladas que se abatem a nossos pés como uma cortina pesada, disse, ou antes, como o velame de um navio humedecido duramente por sortidas intermináveis em mar alto, dir-se-ia que, depois das histórias e da voz que as persegue sem remissão, esse enfrentar solitário (com a morte por horizonte) se faz sob o sortilégio de uma forma qualquer de júbilo. Júbilo mortal. Enfrentamos a noite com a certeza de que há uma estranheza em cada um nós, e que toda a amizade (toda a empatia que a música faz alucinar), é um exercício de subjectividades trocadas no território dessa estranheza. Júbilo mortal porque as canções de A Jigsaw se encontram contaminadas pela morte. A morte será o horizonte desse mar tumultuado onde navegamos em estado de graça. A morte surge-nos como o que nos impede o passo, mas a consciência do naufrágio faz da música um trabalho de incursão no perímetro da beleza luminosa dos regressos. Sim, os passos estão truncados pela ferrugem que os toma de assalto, mas, seja como for, embriaguemo-nos de coragem. É sobre isso o exemplo maior desta música de exílios, viagens, fluidas fronteiras, instrumentações imoderadas que é «The Strangest Friend»: «a story to be heard, and a hymn to be sung for all those with dust in their bones / laugh if you will, cry if you must, this is not weakness it’s rust». O quarto que viemos habitar, sensíveis ao nosso próximo fim, ao inevitável naufrágio, abre para uma árvore coberta de corvos. Tudo parece tocado pelo lado mais escuro da noite, e tudo reclama um ponto de vista que não pode ser outro senão o da beleza. O ponto de vista da beleza. Essa rapariga à qual suplicamos presença, regresso, figurações do que só podemos entrever, sabendo que nos deslocamos a passos determinados para o nosso fim. Sim há morte, mas há sempre uma porta que dá para esse ponto de vista. O da beleza que queima, que dança entre o ver e o não ver, entre o visível e o invisível. E sob o signo dessa morte, há uma troca de olhares que nos indistingue, que nos alia: «There I found my death, between your eyes and mine». Qual é o lugar da música? A Jigsaw parece dizer-nos que as mais antigas baladas deveriam voltar para incendiar os nossos dias e as nossas noites, outra vez. Mostrar-nos como há coisas que não se demonstram ou explicam. Dão-se. O lugar da música é afinal o de inventar uma afinidade profunda entre a escuridão recíproca que nos habita. Entre aquele que canta e aquele que escuta, uma mais dolorosa e inevitável canção se desenha. Talvez uma valsa, a última valsa de uma Roma queimada como homenagem às figurações da beleza e da morte que perseguem cada compasso de A Jigsaw.  Nero haveria de se orgulhar deste fogo.

Luís Quintais, Outubro de 2011.

outubro 29, 2011

"DRUNKEN SAILORS & HAPPY PIRATES" por ALFRED CRESPO (RUTA 66)

Dia 1 de Novembro ... 

 Nas palavras de Alfred Crespo, que aqui apresenta "Drunken Sailors & Happy Pirates" 

 "DRUNKEN SAILORS & HAPPY PIRATES" 

 La espera ha terminado, y surcando metafóricas aguas regresan unos marineros que parecen cómodos viajando sin cesar. No parecen preocupados por perder de vista sus orígenes, ni por la ausencia de tierra firme bajo sus pies. Quizás porque están seguros de que su destino les conduce a sí mismos, quizás porque su verdad, su música, es de aquí y es de ninguna parte. Rotos los lazos, cortadas las amarras, la libertad es más timón que meta. Si Like The Wolf les situó en el punto de mira de catadores selectos y sus conciertos les granjearon una creciente legión de admiradores, esta nueva colección de canciones debería hacer el resto, aportar ese enigmático valor añadido que diferencia a las referencias de las simples promesas. Empezaron embarcados en Letters From The Boatman, y su breve pero reflexionada travesía les muestra infinitamente más maduros, sabios como viejos lobos de mar, atentos como timoneles sin resaca, satisfechos como felices piratas.  La expresiva voz de Joao Rui, las melancólicas notas aportadas por Susana Ribeiro y las imprevisibles aportaciones del juguetón Jorri avisan desde los primeros compases de “The Strangest Friend”: quien suba a su nave no querrá bajar de ella. Encadenan aciertos, sensibles por momentos (“Crow Covered Tree”), carnales (“Lovely Vessel”), inesperados (¿puede un buque llegar a ese Berlin al que cantó Lou Reed?, escuchen “I’ve Been Away For So Long”), definitivamente evocadores (“Devil On My Trail”). 
Al parecer, son de Portugal. Puede ser. O pueden estar jugando al escondite, a proporcionarnos sólo las piezas del puzle que quieren que veamos. Tengan la certeza de que, mientras se escucha su álbum, ellos ya están viajando hacia un nuevo caladero. 
 No es extraño que Tom Waits se haya rendido a su hipnótico encanto. 

 Alfred Crespo (Director de la revista Ruta 66)

outubro 04, 2011

Vila... é tinto e depois


Gerimos todos vidas paralelas. Aqueles dados às chamadas redes sociais gerem uma série de vidas virtuais, mas na prática, quem viver aquilo que o tempo biológico permitir fazer, acaba a gingar por entre as vidas dos amigos, a da família e do(s) amante(s). No centro deste baile está a pessoa singular, essa a trocar de par por entre os seus outros milhares de Eus.

Primeiro com o Freud, depois com o Lacan, a humanidade pôde aprender que nomes chamar a estes duplos que nos assombram e aos outros que tomam conta de nós. Por muito inoportuno que pareça neste contexto a palavra Autenticidade, tão presa ao lugar do Imaginário, tão presa ao Id, aplica-se aqui à minha relação com os Jigsaw, e à relação deles com a sua forma de expressão A maior parte das vezes não pelo que está, mas pelo que pôde haver, porque se foi.

Não precisa este albúm de ser ouvido para que se perceba que a Morte tem estado sempre no foro das histórias dos a Jigsaw. A morte, a par com a esperança. Vejo-as sempre na boca do João Rui como metáforas dos pequenos elogios fúnebres, quando deixamos escapar um de nós, quando cedemos demais e nos apagamos. No clímax, quando nos entregamos e mergulhamos à procura de alguém.


Enquanto fotógrafa digo que passamos anos à procura do momento em que consigamos estar e ver e depois olhar. Claro, depois carregar no botão. Claro, depois comunicar. Mas no plano de trabalho não está nunca a Ideia e está sempre a contemplação da surpresa. Venho aqui apenas para justificar isto: que levou tempo, mas agora cheguei a vós! Ao momento que é ao mesmo tempo particular que universal. É, pode ser ou será, mas eu julgo que seja.

Sofia Silva 
all photos © Sofia Silva, 2011

Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros - espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista.

Luiz Pacheco, A Comunidade

outubro 01, 2011

"Strange enough", ela não é a nossa melhor amiga


Hoje, dia 1 de Outubro, celebra-se o dia da Música um pouco por todo o espaço público e dentro daqueles a quem ocorrer lembrar-se de tal celebração. É certo que a música nos acompanha, nos empurra, nos segura e adormece, mas ela não é a nossa melhor amiga. Porque as palavras pesam e as memórias se associam, Ela se entrega e se nos oferece, deixando que a escolhamos ao sabor dos nossos mais obstinados momentos. E se Ela nos mima e nos complementa em demasia, cabe ao Silêncio o lugar de nosso melhor amigo. É este o “strangest friend” de que falam os a Jigsaw no single de apresentação do novo álbum “Drunken Sailors & Happy Pirates”.


E é na comunhão deste estranho amigo que nos temos vindo a conhecer, a esquecer e a redescobrir. Sabendo que se as palavras falham temos de as deixar. E fartos do barulho não podemos deixar de nos entregar ao silêncio, à espera que Ele nos diga o tanto que sabe de nós.



Apesar de ser também hoje o dia de lançamento de “The Strangest Friend”, foi ontem que esta celebração conjunta começou. Depois de muitas horas de trabalho, muitas viagens, muitas emoções sem pátria e vozes sem linguagem, o João Rui, o Jorri e a Susana Ribeiro fazem agora o que de melhor sabem ser capazes: dão-nos música! E sim, que seja subentendido: dão-nos as melodias e as baladas que nos rejuvenescem o coração, mas também nos atiram para um labirinto de onde não sabemos sair, ludibriando-nos com palavras que de tão melancólicas, simbólicas, autênticas e pessoais, apenas vemos caminhar à nossa frente. 


Mas deixemos o corpo do álbum para depois... Dizia eu que a celebração tinha tido início ontem com a gravação do videoclip do single. Um dia passado numa casa em que o silêncio se fez ouvir sob a forma uma luz imponente que nos visitou. Pelas mãos do realizador António Ferreira essa luz foi desconstruída e distribuída com a mestria que lhe conhecemos e momentos singulares se viveram na presença dessa visão. Assistido pelo Nuno Portugal e o Leandro, o trio esteve incansável no compromisso entre a rigidez de um trabalho técnico e a presença de um conjunto de verdades que se sobrepõe.

Resta-me agradecer: aos a Jigsaw pela música, pelo tempo, o conhecimento, a amizade e irmandade e ao António pela oportunidade de ter visto a luz a desenhar-se.

Sofia Silva 
all photos © Sofia Silva, 2011

setembro 26, 2011

Coimbra, Amsterdão, Berlim [Recording Sessions]

Apenas a distância separa a emoção. Mas em todas as coisas visíveis, as amarras desta mesma embarcação são cortadas em portos distantes por diferentes mãos. Magnífico...
João Rui

(a Jigsaw Mastering Sessions with Ward Veenstra at Geuzenoord Studio; João P. Miranda, Amsterdam)
Photo: João P. Miranda
Coimbra, Amsterdam, Berlin [Recording Sessions] Only distance separates the emotion. But in all visible things, the ties of this same vessel are cut in distant harbours by different hands. Magnificent... João Rui

setembro 13, 2011

Os degraus da solidão [09.09.2011 Aveiro]

 Entre as gotas da chuva que não são lágrimas de céu e as fendas da calçada que por elas deixaram de esperar há um pacto de ausência. Como se o voltar de costas ao futuro o pudesse evitar. Na sala negra deste mercado vim ouvir o pacto do silêncio quebrado entre melodias. E se o pudesse colher como se fora uma cicatriz do meu jardim, talvez voltasse costas e seguisse em abandono por não lhe poder oferecer melhor guarida. O tempo vai arrumando as promessas junto às outras que com ele partiram. É hora de recordar como em verdade, já conhecia o teu abandono: que novidade tão antiga vem procurar abrigo junto do meu coração. O que foi feito das raízes onde me julgava encontrado?
João Rui 
Photo: Joao Nuno Silva [Blog: A Certeza da Música]
 The steps of loneliness [09.09.2011 Aveiro] Between the raindrops that are not tears of heaven and the cracks of the sidewalk that no longer wait for them, there is a covenant of absence. As if the turning of their backs to the future could avoid it. In the room of this black market I came to hear the covenant of silence broken between melodies. And if I could pick it out as a scar from my garden, maybe I would turn my back and moved forward for not being able to offer better shelter. Time begins to keep promises next to the others that have already departed with. It is time to remember how in truth, I already knew your abandonment: and what is this old novelty that comes to find shelter close to my heart What is of the roots where I thought I was found? João Rui

setembro 07, 2011

Tinta da China [31.08.2011 Viseu]

Nas alas deste jardim de luzes de néon viemos encontrar os dedos que desenham o futuro escondido entre palavras repetidas. As mãos ainda negras da tinta com que o vai urdindo recebem um par de palavras que a si lhe há-de pertencer. E há nesse movimento mais do que se pode imaginar.
João Rui
Photo:Ana Teresa Hespanha
Indian Ink [31.08.2011 Viseu] In the wings of this garden of neon lights we have come to find the fingers that draw the future hidden among repeated words. The hands, still black with the Indian ink with which he plots the future, receives a pair of words more that will belong to him as well. And in that movement there is more than one could imagine. João Rui

agosto 29, 2011

Madrugada [Recording sessions]

Com o avolumar das horas, o dia vai-se deslocando para diante como se nos aproximássemos do fim dos dias – e cada nova manhã recebe-nos o corpo cansado umas horas mais tarde do que lhe havíamos entregue no dia anterior; como se nos houvéramos esquecido do ciclo dos dias...
Os dentes dos velhos teclados cravam-se nos acordes e precipitam as canções também para diante. 
E da pele arrepiada? Não é o frio que lhe entrega essa convulsão.
Que estranhas horas da madrugada nos vêm visitar.
João Rui

Dawn [Recording sessions] With the swell of hours, the day moves forward as if we were approaching the end of the days - and each new morning welcomes our tired body a few hours later than we had given her the day before; as if we had forgotten the cycle of the days... As the teeth of the old keyboards carve themselves in the chords, they precipitate the songs onward. And the skin with goosebumps? It is not the cold that offers her this seizure. Such strange hours of the dawn are these, that have come to visit us. João Rui

agosto 14, 2011

A Sangria de Agosto [13.08.2011 Fundão]

Esta noite o passado veio aqui procurar a recordação do que já não sou. Também não sei porquê ou como de mim partiu: seremos para sempre estranhos que vão cruzando olhares algures entre o ódio da promessa e o perdão do que foi roubado. Então entreguei-lhe o lobo. O das raízes. Ainda.
João Rui
Photo: Pedro Parreirão
A Sangria de Agosto [13.08.2011 Fundão] Tonight the past came here to find memory of what I no longer am. I know not why or how he left from me: forever we will be strangers whose eyes cross somewhere between the hate of the promise and the forgiveness of what was stolen. So I gave him the wolf. The one of the roots. Still. João Rui

agosto 12, 2011

A luz que entra através da janela [Recording Sessions]

Nesta sala onde venho para morrer, todos os sorrisos se quedam junto à porta: olham a luz quebrada pelos longos cortinados negros que descem das traves adormecidas junto ao tecto e esperam calmos pelo fim.
Então ergue-se a tinta dos poemas que esperavam eternidade no caderno negro para se entregarem ao cárcere do microfone. E há uma certa matemática neste diálogo: calcula-se a dimensão das garras da voz e em função disso inventa-se forma de a não deixar evadir-se desta prisão.
Que estranha forma de procurar o que se perdeu.
João Rui
The light that comes through the window [Recording sessions] - In this room where I come to die, all smiles stop by the door: they look at the light broken by the long black curtains that descend from the sleeping ceiling beams and calmly they wait for the end. The ink rises from the poems that waited eternity inside the black book so they can surrender to the prison of the microphone. And there’s mathematics at work in this dialogue: one estimates the size of the claws of the voice and on that basis one invents a way to leave no escape from this prison. What a strange way of finding what was lost. João Rui

julho 12, 2011

A reconstrução [09.07.2011 Torres Novas]

Sem mais lugar para onde nos pudéssemos escapar desta invasão, decidimos partir para alto mar para reconstruir o que era do passado mal esquecido – e aqui viemos entregar uma canção a cada torre, para nos não perdermos desta casa. Obrigado...
João Rui
 Photo: João Rodrigues
The reconstruction [09.07.2011 Torres Novas] Without another place to run to from this invasion, we decided to leave for high seas, to rebuild what was of that ill forgotten past – and to each tower of this castle we did come to leave a song so we wouldn’t lose ourselves from this house. Thank You… João Rui

julho 04, 2011

Crooked John [Live Video by Musiquim]

Video by Luis Belo / Musiquim [Viseu/Portugal]
Recorded at EMPÓRIO, 20.06.2011

FREE DOWNLOAD OF THE WHOLE CONCERT IN

MUSIQUIM: "João Torto is the protagonist on one of the most curious folk tales of Viseu. The story tells us that, this inventor designed and crafted wings of cloth, and leather to experiment human flight. On the 20th of June of 1540, this “modern” Icarus climbed up to the top of the cathedral's tower to make use of his invention. The flight began well for a little while, but due to some technical problems, he crashed soon after in the roof of a chapel. He died a couple of days later due to the injuries inflicted during the landing. To this day, I still like to believe that there's some truth to this folk tale that turned Viseu's João Torto into a worldwide figure. So, to celebrate the anniversary of his flight, we invited the band “a Jigsaw” (myspace.com/​ajigsaw) to write a song about Torto's adventure and present it live in Empório (A cultural space that from the begging of the year has been making cultural activities concerning art with João Torto as the background theme) precisely on the 20th of June. a Jigsaw's response was staggering and this video is the first live presentation of their new song "Crooked John"".

junho 21, 2011

Crooked John [20.06.2011 Viseu]


Crooked John
(a Jigsaw)

I heard my wings whispering so low
Where did you hide last night?
It was the wind my dears
It was its darkness that kept me away

Oh my, oh crooked John
Come the sunset, we will be gone

I poured my madness and desire
Into thy perfect wretched mold
I gave you my voice, my love, my fear
If it must be, then I’ll crawl beneath these wings

Oh my, oh crooked John
Oh my, oh crooked John
Come the sunset and we’ll be gone

Was my death not enough to scare those little birds that flew with me?
Was my death not enough to scare those little birds that flew with me?
Then ravens, ravens they must be

Oh my, oh crooked John
Oh my, oh crooked John
Was my death not enough?


Oh my, oh crooked John
Oh my, oh crooked John
Come the sunset and you will be gone


junho 20, 2011

A convulsão do mar [17.06.2011 Figueira da Foz]

Aqui, bem à beira de ti esqueci-me de te visitar. Terá sido a súbita mudança das nuvens? Haverá realmente algo que me impeça de precipitar na primeira das vagas, mesmo que ela não conheça o retorno? O pior que não imagino seria regressar a terra firme sem saber o que isso é.
João Rui

Photo: João P. Miranda
The seizure of the sea [17.06.2011 Figueira da Foz] Here, right by your side, I forgot to visit you. Was it the sudden change of clouds? Is there really anything that prevents me from falling into the first wave, even if she does not know the return? The worst that I can not imagine would be returning to firm land without knowing what that is. João Rui

junho 12, 2011

Quando os dedos se quebrarem [10.06.2011 Braga]

O suor da tarde entranha-se nas cordas para à noite as quebrar; como se numa harmonia perfeita houvesse apenas uma nota em discordância com todas as outras, que decidisse sussurrar a ausência ao seu coração momentos antes do seu estertor: em breve seremos uno. Até quando os dedos irão ignorar essa possibilidade? Talvez se esqueçam enquanto o bom Deus mantiver as suas mãos pousadas nas minhas que repousam sobre as cordas – mas e se o que me resta é apenas a sua ausência e confundo palácios com ruínas? Então, é como se o que nos pode matar já houvesse por nós passado e nos restasse apenas o gládio com a esperança, na antecâmara da desilusão.
Subimos ao palco pelas escadas de metal que nos aguardavam no silêncio de Braga e num instante tudo se tornou incêndio numa voz ainda mais negra que esta.
João Rui

When the fingers break [10.06.2011 Braga] The sweat of the afternoon wraps itself around the strings in the afternoon so it can break them in the night; as if in perfect harmony there was only one note in dissonance with every other, and decided to whisper its absence to the heart moments before its death throe: we will soon be one. Until when will the fingers ignore this possibility? Maybe they will forget while the good Lord keeps his hands resting on my my hands that are resting on the strings - but what if what I have left is just his absence and am merely confusing palaces with ruins? So, it's as though as if what could kill us had already passed through us and we only had left this fight with hope, in the anteroom of disillusionment.
We climbed the metal stairs to the stage where the silence of Braga awaited us and everything became fire in an even darker voice than this. João Rui

junho 07, 2011

Lisboa e o Plano [04.06.2011 Lisboa]

É de novo a hora de encostar os dedos nas cordas do êxtase e arrancar o coração do peito. E ainda que assim não fosse, ele saberia como e por onde haveria de planear a sua fuga.
É nessa ausência que nos apercebemos do silêncio negro que se esconde por detrás de cada palavra.
João Rui
Photo: Ana Pereira
Lisboa and the Plan [04.06.2011 Lisboa] It is time again to rest the fingers upon the strings of bliss and tear the heart from the chest. And still, even if it was otherwise, he would know how and where to plan his escape. It is in that absence that we realize the black silence that hides behind each word. João Rui

maio 17, 2011

Os templários [07.05.2011 Tomar]

Se este era o epicentro da batalha, que sorriso é este que hoje nos recebe no centro dela? Agora já não se ouve o roçar das armaduras nas muralhas do castelo nem os cascos dos cavalos de quem ninguém guardou o nome.
João Rui
The templars [07.05.2011 Tomar] If this was the epicenter of the battle, which smile is this that greets us today in the center of it? Now we do not hear the rustling of the armors in the walls of the castle nor the hooves of the horses with no name. João Rui

maio 15, 2011

A razão da minha mãe [06.05.2011 Portalegre]

Da varanda do CAEP observam-me as ruínas e torres da cidade; e as chaminés já só entregam ao vazio o fumo da memória. Robinson. Passou um ano desde a última vez que aqui estivemos em fuga; sem tempo para conhecer as ruas, as caras – os silêncios desta cidade. Despedia-me eu dela como se não fora possível regressar; como se achasse a razão da minha mãe fantasia. Mas não era. E Portalegre, terra de lobos como nós, guardou um sorriso que hoje me entregou.
João Rui
Photo: Biel
The reason of my mother [06.05.2011 Portalegre] From the balcony of the CAEP I’m watched by the ruins and the towers of the city; and the chimneys only deliver the smoke of memory. Robinson. One year has passed since the last time we were here on the run; without time to know the streets, the faces – the silences of this city. I said farewell as if the return was not possible; as if I thought my mother’s reason was a fantasy. But it was not. And Portalegre, land of wolves like us, kept a smile to offer me today. João Rui

maio 04, 2011

A Porta [30.04.2011 Valladolid – Espanha]

Voltarei por esta porta ou por outra qualquer através da qual vislumbre esta estrada.
À porta deste céu decidi fingir silêncio e verdade.
João Rui
Photo: João P. Miranda
The Door [30.04.2011 Valladolid – Espanha] -I will return through this door or any other through which I can glimpse this road.At the doors of heaven I decided to pretend silence and truth. João Rui

maio 01, 2011

Los pájaros de papel [29.04.2011 Zaragoza - Espanha]

Esta é uma estrada que já conheço; que já me contou os seus segredos e sabe que os tenho guardados. Mas hoje vieram visitar-me à janela pássaros de papel que se empoleiravam nos estendais de electricidade destas planícies. Os olhos varrem os Monegros à procura de ti, que talvez sejas hoje asas de papel ou o vento que as encanta.
Entramos em Zaragoza por entre os leões que guardam o rio: os dentes de pedra partida ainda fincados na pele macia observam-nos os passos certos que encontram o antigo abraço desta cidade.
À porta da Lata de Bombillas, onde fomos deixar o coração, ouvia-se a queda das plumas das tuas asas nas minhas mãos.
João Rui
Photo: João P. Miranda

The paper birds [29.04.2011 Zaragoza - Espanha] - This is a road I already know; that has already told me its secrets and knows I have kept them well. But today, paper birds stacked upon electric dreams came to visit me by the window. The eyes sweep the Monegros looking for you – maybe today thou art paper wings or the wind beneath them. We enter Zaragoza by the river, where lions with stone teeth still carved in the soft skin watch over our steps as we find the old embrace of this city. By the door of Lata de Bombillas, where we went to leave our heart, I heard the fall of your feathers in my hands. João Rui.

abril 30, 2011

No oblidem [28.04.2011 Barcelona – Espanha]

Regressamos a outro país dentro de outro país; tenho a sensação que também assim somos: o nosso coração é um país dentro de outro. E está sempre em guerra ou numa paz de silêncio e veneno – esse que encontrado sem a sua independência se vê roubado dela. E quando souber dizer a esse ladrão que o pouco que rouba é tudo o que me resta, será tarde de mais para lhe oferecer o que me sobrava.
João Rui


Photo: João P. Miranda
Don’t Forget [28.04.2011 Barcelona – Espanha] We return to another country within another country, I have a feeling that we are the same: our heart is a country within another. And he is always at war or in a peace of silence and poison – this one who finding himself without his independence sees himself stolen of it. And when I know how to tell that thief that the little he is stealing is all I have left, it will be too late to offer him that I had left.
João Rui

abril 27, 2011

a Jigsaw - Rebel Rebel (David Bowie) Live at "Le Galopin" / France 2011


Video by João P. Miranda [ Bretagne (France) 2011 ]
24.04.2011

Live at "Le Galopin" - 23rd Anniversary

a Jigsaw, performing David Bowie's "Rebel Rebel"

abril 26, 2011

“C'est pas la bière qui te fait pleurer“ [24.04.2011 Guingamp – França]

::: Soirée Privée :::
"Six Blind Days": avec le accordeoniste extraordinaire Jean Marc
"Mon Petit Garçon": Fif, Jean Marc et a Jigsaw

Photo: João P. Miranda

“Dans la côte à la nuit tombée, On chante encore sur les violons. Au bistrot sur l'accordéon,
C'est pas la bière qui te fait pleurer“

abril 25, 2011

L'absence et délire [23.04.2011 Trébeurdent – França]

É estranha a hora em que oferecemos guarida ao delírio do qual fomos amantes e presas.
É a consciência da loucura com que permitimos a ausência da nossa certeza de partida.
João Rui

Photo: João P. Miranda

L'absence et délire [23.04.2011 Trébeurdent – França] – it is a strange hour, this when we offer shelter to the delirum of which we were both lovers and preys. It’s the conscience of the madness with which we allow the absence of our certainty of departure. João Rui

abril 23, 2011

A eternidade de silêncio [22.04.2011 Guingamp – França]

A noite não conhece o nosso sono; não totalmente. Ou então não o compreende. E assim, como silhuetas de Outono, atravessamos Espanha rumo a França através das longas horas desta noite. Aqui vimos encontrar um país dentro de outro país: a Bretanha. Fif, o timoneiro desta embarcação diz-me, ainda de olhos apaixonados pelo nosso Porto, que a Bretanha é como Portugal: não é um caminho nem passagem, mas um destino. Para nós tem sido em si também um porto; uma partida; uma chegada – um destino fugaz de quem a nada mais pertence. E assim assomamos o palco deste país como se fora o derradeiro concerto; como se o sangue nos abandonasse num estrondo e se seguisse a eternidade do silêncio
João Rui

Photo: João P. Miranda

The eternity of Silence [22.04.2011 Guingamp – France] The night does not know our sleep; not entirely. Or maybe she does not understand it. And so, as silhouettes of autumn, we go through Spain towards France in the long hours this evening. We find here a country within another country: Brittany. Fif, the helmsman of this boat tells me, with eyes still passionate for our Oporto, tells me that Brittany and Portugal are the same: not a path nor a passage, but a destination. To us it has been in itself also an harbour; a departure and an arrival - an elusive target for whom no longer belongs to anywhere. And so, we took the stage of this country as if it was the last concert; as if the blood abandoned us in a blast and what followed was the eternity of silence. João Rui

abril 22, 2011

Da Fé [21.04.2011 Santander - Espanha]

E se todos os barcos deste porto partissem neste momento; nesta noite…
Quem cuidaria das preces que aqui vimos entregar?
Acompanhamos a lentidão desta marcha em cada acorde.
Como se fôramos parte dela. Como se pudéssemos não ser.
João Rui


Photo: João P. Miranda

Of Faith [21.04.2011 Santander - Espanha] - What if all the boats of this harbour suddenly parted this instant; this night… Who would take care of these prayers that we came to deliver? We follow this slow march in each chord. As if we were part of it. As if we could not be so. João Rui

abril 10, 2011

O fim de tudo [09.04.2011 Esposende]

Continuamos a viagem para norte, a caminho do mar. Sentados em torno de uma mesa, falamos do fim de todas as coisas, para não nos esquecermos do princípio delas. O que em breve será o pão de cada dia, agora é apenas lenha que se entrega à fornalha – e hoje é um bom dia para incendiar estas ruínas.
João Rui

Photo: Biel

The end of everything [09.04.2011 Esposende] – we keep on our journey up north, towards the sea. Sitting around a table, we speak of the end of all things, so that we don’t forget their beginning. What soon will be the bread of each day, is now but wood that we deliver to the furnace – and today is a good day to set fire to these ruins. João Rui

abril 09, 2011

A preparação [08.04.2011 Porto]

A camisa negra ao fundo da gaveta ainda lavada de Itália, o gancho de cabelo perdido entre cordas de violino, a gravata esquecida no cabide abandonado. Arrumamos artefactos possuídos de estranhas memórias nos mesmos corpos destes corações partidos. Regressamos ao porto; ao Porto; ao porto. É como se voltássemos a cruzar o rio do Barqueiro porque em ambas as margens encontramos um olhar que já faz parte do nosso e que nos vê chegar e partir como se fossem ondas arrependidas da sua voragem junto à areia. Maus Hábitos…
João Rui
Photo: Biel
The preparation [08.04.2011 Porto, Portugal] - The black shirt at the back of drawer still washed from Italy, the hairpin lost between violin strings, the forgotten tie in the abandoned hanger. We pack these artifacts suddenly possessed of strange memories in the same bodies of these broken hearts. We returned to the harbour, to Porto, to the harbour. It is as if we returned to cross the river of the Boatman for on both sides we find a stare that is part of ours that sees us coming and going like waves regretted of their vortex along the sand. Bad Habits ...
João Rui

abril 04, 2011

O Desassossego da estrada [01.04.2011 Beja]

E se o caminho tivera sido outro? A caminho do coração do Alentejo, as cidades vão surgindo por detrás dos montes que a estrada rasga. Calor impossível de afagar. O termómetro regressa ao verão por instantes. Ainda é cedo, mas a visão do mar da Nazaré torna esta verdade numa realidade. Talvez seja o brasido do verão que me vem avisar da despedida da sua clemência. Seremos suor e pouco mais dentro de alguns meses. Beja recebe-nos no estertor desta Primavera recém-nascida, como se ela soubera do Desassossego que em nós também habita. E se o caminho tivera sido outro? Este palco ruidoso é irmão de outro que encontrámos em Itália. É-o no nosso coração. Talvez seja por isso que ele lá ficou. Mais uma memória que encontrou forma de não desvanecer. E a esta hora que regressamos a casa, já a chuva voltou para nos esquecer do sol e de tudo o mais possível de esquecer. Já pouco somos de onde estamos e já tão pouco somos quem éramos. E se o caminho tivera sido outro?

João Rui

Photo: João P. Miranda

The disquiet of the road - What if the path had been another? In our way to Alentejo, the cities appear behind the hills this road is tearing apart. Impossible heat. The thermometer returns to summer for a brief instant. It’s still too soon, but the vision of Nazaré’s sea turns this truth into a reality. Maybe this heat of summer is coming to warn me of the farewell of its mercy. We will be no more than sweat in a few months. Beja receives us with the last breath of this new born Spring. As if she knew of the disquiet that also lives within us. What if the path had been another? This noisy stage is a brother of one other that we found in Italy. It is so in our heart. Maybe that’s why he stayed there. Another memory that found a way to not fade away. And at this hour that we return home, the rain made its way back to make us forget of the sun and all other things that are possible to forget. We are so far from where we are and we’re so far from what we were. What if the path had been another? João Rui

abril 02, 2011

O Baile de Debutantes [Recording Sessions]

Algumas chegaram há pouco, mas outras já partilham connosco a Casa Azul há algum tempo - as Vozes. Vozes com cordas, vozes com teclas, vozes com pele, algumas da idade dos nossos avós, outras que fomos buscar ao lado mais a leste da Europa e ainda aquelas que cruzaram sozinhas o Atlântico, a querer chamar casa a uma morada ainda desconhecida. As nossas Vozes. Pergunto-me se não seremos nós mais delas… Somos tão desajeitados, às vezes, (nem posso deixar de sorrir com alguma ternura ao relembrar alguns pequenos desastres :)) mas o desejo de construir a canção que pulsa na nossa cabeça é tão maior que aquilo que nos quer limitar… !! Ainda não é hora de abrir as portas aos convidados, de começar o Baile que há-de ser festa ou viagem, mas acreditem que muito se tem cantado nesta Casa.

Susana



(Serra de S. Mamede)

março 24, 2011

O som da pele [Recording Sessions]

Apropriamo-nos de horas menos próprias para entregar estes murros silenciosos contra a pele curtida. Ali dentro da sala vazia, ouve-se o som abafado das baquetas que violentamente penetra as paredes desta casa. Ouvimos continuamente as palavras que sobrevoam a fita e recordamo-nos do que aqui nos trouxe.
E nem há sol ou pôr-do-sol. Não há lua nem nuvens, nem estrelas. Há um silêncio que perdura em tudo, mas que aqui não pertence. O som da pele é um grito que não é abafado nem é um desabafo. É um sem número de palavras que clamam resgate do nosso corpo. Que queriam ser ouvidas mas que apenas terão direito ao estrondo que embala os minutos e os segundos que se amassam à porta do que permitimos.
João Rui

The sound of skin - we take for our own less proper hours to deliver these silent blows against the tanned leather. There, inside the empty room, one hears the muffled sound of drumsticks that violently penetrate the walls of this house. We hear the words continually flying over the tape and we remember what brought us here. And there is neither sun nor sunset. There are neither clouds nor moon, nor stars. There is a silence that lasts in all, but that does not belong here. The sound of the skin is a scream that is not muffled and neither is it a rant. It is an endless number of words that call redemption from our body. That wanted to be heard but that only will be entitled to the bang that cradles the minutes and seconds kneading by the door of what we allow. João Rui

março 09, 2011

A quatro (pares de) mãos [Recording Sessions]

Aqui, na serra de S. Mamede, trabalha-se de sol a sol... ou será de lua a lua?! É que perdemos constantemente a noção do tempo!! Um dia destes mostramo-vos a beleza natural que temos por vizinhança lá fora, mas hoje é dia de conhecerem um bocadinho do caos organizado que é a nossa casa-estúdio. Quarta foi dia de pausa nas gravações para preparar os próximos concertos. Têm sido dias a quatro pares de mãos, mesmo quando só se ouve um instrumento dentro do estúdio, mesmo quando um de nós desceu à cidade para comprar pão fresco, ainda que só um esteja ao leme, entre ondas sinusoidais e arpões de sons.
Susana

Photo: João P. Miranda
With four (pairs of) hands - Here, in the hills of S. Mamede, we work from sun to sun ... or is it from moon to moon?! It’s that we constantly lose track of time! Some other day we will show you the natural beauty that we have for a neighborhood out there, but today is the day for you to know a little more of the organized chaos that is our home studio. Wednesday was a break day from recording to prepare the next concerts. The days have been of four pairs of hands, even when only one instrument is heard in the studio, even when one of us went down to the town to buy fresh bread; even though only one is at the helm of sinusoidal waves and harpoons of sounds. Susana

março 08, 2011

O violino [Recording Sessions]


Os músculos estão quentes e fazem estalar a madeira madura. Tens dedos e tens ouvidos. Cortaste as unhas para que mais facilmente as cordas te cortem os dedos? Calma, Inspira. A música não nasce dos dedos, muito menos estas canções, é ao coração que deves vassalagem. Espera, mas o coração não é um músculo? Então fecha os olhos e concentra-te num ponto, focagem, zoom, ou então suavemente deixa que tudo fique difuso, até à perfeição. A tua memória é a caixa de ressonância mais que perfeita destas canções, por isso Respira. Relês o que deve ser esquecido, queimas o que devias ter estimado e limpas mais uma vez a resina que se vai agarrando às cordas. Qual é afinal o teu sonho? É para responder rápido, evita usar palavras! Há tantas vozes neste navio, tantas quanto a verdade que teima em cantar e queimar-te os dedos, o único artifício é o teu medo. Sossega, esse violino não é teu. Há muito que o barqueiro o levou, há muito que um lobo lhe vela o sono. A nova enseada pode devolver-te o que procuras, por isso, antes do próximo clique de metrónomo,
Inspira. Expira… (alguém espera alguém no cais) … Respira.
Susana

Photo: João P. Miranda

The violin - The muscles are warm and they crack the ripe wood. You you have fingers and ears. Did you trim your nails so that the strings would cut your fingers more easily? Relax, Breathe. The music is not born out of the fingers, much less in these songs. It’s to the heart that you owe allegiance. Wait, but is the heart not a muscle? So close your eyes and concentrate on one point, focus, zoom, and then gently let everything be diffuse, unto perfection. Your memory is the resonance box more than perfect of these songs, so breathe. You read once more all that should be forgotten; you burn what you should have kept and you clean once more the resin that clings to the strings. What is your dream after all? You must answer fast, avoid using words! There are so many voices in this vessel, as many as the truth that insists in singing and burning your fingers. The only artifice is your fear. Calm down, this is not your violin. It’s been a long time since the Boatman took it. For a long time the wolf has been watching over its sleep. The new shore might give you back that what you seek, so before the next click of the metronome, inhale, exhale … (someone is waiting in the pier) … breathe. Susana