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fevereiro 10, 2010

Arrivals & Departures

A viagem havia sido frenética. Não porque tenha havido contratempos, mas porque os sentimentos estavam à flor da pele e alternavam entre si, acumulavam-se, explodiam, escapavam e voltavam com o dobro da força.

Éramos quatro amigos impelidos por uma despedida iminente. O conta-quilómetros do carro onde seguíamos assinalava mais um passo ao encontro desse momento. Ora permanecíamos dentro de nós olhando silenciosamente uma película vazia através da janela, ora saltávamos à vista depois de uma gargalhada. Estávamos à espera de um único momento que estava prestes a chegar.
Chegados ao ponto onde o caminho se bifurca senti que tudo se precipitava. Estava a ser demasiado rápido. Queria ter olhado para eles, memorizado as expressões das suas caras para guardá-las carinhosamente. Contudo, embora já não houvesse o conta-quilómetros a denunciar a proximidade do momento, havia os ponteiros de um relógio que não se quedavam. Depois era o tal turbilhão de sentimentos que acossavam o coração. Os meus amigos iam partir. Eu era a única que ia ficar. Temia o que vinha a seguir, quando eles não estivessem ao meu lado.
Já eles tinham atravessado para o outro lado do vidro e eu ainda tentava ver até ao último detalhe da silhueta do lobo. Dei conta que tinha um risco translúcido que percorria a parte esquerda da minha cara. Enquanto o apagava com as costas da mão, tentava descortinar se estava triste ou alegre. Queria decidir imediatamente. A minha face direita ficara intocada pela despedida.
Eles desapareceram do outro lado do vidro e eu tinha agora que lidar com uma nova soma de sentimentos. Permiti corajosamente que cada um me inundasse. Entrei dentro do mesmo carro azul que nos havia reunido. Ao meu lado estava uma melódica, uma mala com uns anjos inscritos e outra que não quis abrir. Ao contrário de mim, estarão outra vez com eles daqui a dois dias. O carro era agora um local de solidão e esperava-me uma viagem ao ponto de partida. Aqui vou permanecer e aguardar notícias do outro lado do vidro. A última vez que os vi sorriam para mim. E no entretanto, cada vez que lembro isso, sorrio de volta.

Daniela Côrtes Maduro

junho 17, 2009

A Casa Azul #5 (by Flávio Torres)

Dia 10-06-2009 Quarta-Feira
Deixo a Beira Interior com destino à casa do lobo, um sol desmaiado acompanha-me nesta viagem curta e expectante rumo a oeste. O asfalto traça as suas linhas a 140Km h seguindo um desenfreado labirinto de vegetação, duas horas depois avista-se a cidade que me espera, “Coimbra”. Após alguns quilómetros, o lobo uiva sem luar e a casa azul surge por entre um terreno verde quente e idolatrável. Ali uma agitação frenética invade todos os presentes, uma equipa prepara o teledisco “Red Pony”, outros aventuram-se em arrojadas tarefas de bricolage, pintura, carpintaria, enfim… a casa azul transforma-se ficando cada vez mais azul. Prepara-se um Churrasco no qual o João é mestre a adicionar um tempero bem picante e acompanhamo-lo com cerveja fresca saborosa. Os trabalhos na casa continuam durante a tarde, no primeiro andar monta-se um mini-estúdio acolhedor num quarto sereno, para que se comece a gravar “The Hill Sessions”. Lá em baixo o frenesim continua dedicado a pormenores, ao cenário do teledisco, e em som ambiente toca um disco de Eels, a música que toca é “Flyswatter”.
O cansaço é notável em todos, pois a meia-noite já se fez soar. Decidimos deixar a casa azul e procurar um recanto que nos sacie o estômago… amanhã é outro dia de magia onde o covil do lobo enfrenta novos desafios.

Dia 11-06-2009 Quinta-Feira

Hoje o dia é quente e sereno, são 11:30 da manhã e encontramo-nos a caminho da casa, é uma viagem de meia hora cheia de boa disposição, com o cheiro do passado que acolhe aquela estrada. Por ali passam pessoas sem modas, que transpiram nos seus passos sem pressa e com remanso. Chegados ao covil, Jorri já se encontra por lá inquieto nas arrumações e limpezas necessárias ao conforto da alcateia, na sala do cenário discutem-se ideias e trocam-se pensamentos elaborados e eu dou uma vista de olhos num Harmonium que se distingue na sala de ensaio, “que som encantador !!!” . O cheiro a churrasco e especiarias invade o nosso apetite e juntamo-nos todos na cozinha para uma boa refeição, o picante está no ponto (João, é assim mesmo!). Seguido de um café, acompanhamos uma abonada bagaceira que nos deu vaidade para comentar o trabalho ali exercido. No decorrer da tarde, dedico o meu tempo a “The Hill Sessions”. A Susana regista o som do seu violino, executando um tom doce/melodioso com um vibrato arrepiante que me deixa iluminado e com poucas palavras. O comboio passa lá fora e os cães acompanham o seu ritmo, ralhando a sua pressa. Por entre a janela, a noite visita-nos o tempo passa a correr….

Dia 12-06-2009 Sexta-Feira
Neste dia, eu e o Mané dirigimo-nos para a casa azul já no final da tarde, com o intuito de por ali pernoitar e trabalhar numa enorme sessão de gravação. Ao chegarmos lá, os afazeres continuavam - João, Jorri e Susana, entre todos os elementos da equipa de filmagem, lá estavam, dedicados às tarefas que o lobo lhes tinha incutido. Após uma boa refeição e um bom dedo de conversa com todos os ajigsawianos, eu e o Mané aportámos no 1º andar para iniciarmos a sessão, o objectivo era incluir percussões e ritmos ao que já estava feito. Entre sons e pormenores criativos, tragávamos gin cola para que o feeling permanecesse daquela forma por muito tempo, e take após take o resultado ia ficando espantoso, fumávamos cigarros atrás de cigarros com um raiar de contentamento. 6 da manhã, o comboio passa, os cães e outros animais ficam agitados com o nascer do dia, ouvem-se já passos no outro lado da estrada. Nós estamos contentes e esgotados, assim como as paredes da casa azul, reclamamos de um bom descanso. Mesmo ali ao lado temos os nossos colchões improvisados a uivarem por nós, não tivemos tempo para mais qualquer tipo de comentário, o sono invadiu-nos completamente…mas lembro-me que dormi feliz.
Dia 13-06-2009 Sábado
Acordámos com um bater penetrante na porta principal de madeira esgotada, olhei para o relógio e passava pouco das 11. Pensava para mim que a minha jornada por ali estava a terminar pois era o meu último dia. Enquanto batiam, uma voz chamava por nós, era o João e o Jorri, já prontos para mais um dia. O Mané desceu para lhes abrir a porta, pois a chave tinha ficado em nossa posse, eu fiquei um pouco mais para acordar em mansidão, aproximei-me da janela e deslumbrei a vista da manhã com um sol radioso. Mais tarde chegou a Susana e o Zé Pedro e por ali almoçámos os seis, pacificamente auxiliados de um café conduzido por uma aguardente e algumas experiências numa resonator. Este sábado dedicámo-lo praticamente a “The Hill Sessions”, Susana inclui mais um instrumento com um som brilhante idêntico a um sino e após essa adição despedi-me do seu encanto. Depois de acomodarmos uma cervejas, João faz magia com a sua voz quente num cover de Johnny Cash e incluímos também harmónica num tema de Bob Dylan. Enquanto a tarde avançava divertiamo-nos muitíssimo com alguns takes interessantes. Cá em baixo Jorri dedica-se à cozinha, presenteando-nos um jantar fabuloso e criativo que fica em segredo (só ele sabe a receita), este assistido por um bom vinho. Ali ficámos os quatro calmamente a provar um conjunto de sabores e a tagarelar sobre vários temas da actualidade, música e leilões… Antes de sair da Casa Azul, passeio pelas suas divisões e transmito para elas o desejo de voltar, Depois disto verbalizo um adeus, um até já, um até sempre. Despedimo-nos com um abraço e com a certeza que mais momentos destes irão surgir. Na memória ficam os bons momentos, as boas pessoas que por ali conheci, a amizade e a música.


A todos vós um desmedido obrigado.
Até breve (rock n roll) !!!
Flávio Torres


A Casa Azul #4

a primeira vez que vi o flávio "tratar da saúde" a uma guitarra, ele partilhava o palco com o nosso mané. lembro-me de pensar "mas onde raio está o resto da banda?!!!" dois tipos em cena, um na guitarra, voz e pratos de choque, o outro no baixo, bombo e tarola, e muita energia, muita cumplicidade, muito rock naquelas veias!! :D lindo!!

na semana passada, o flávio esteve em retiro criativo na casa azul que mais uma vez revelou ser exímia a urdir teias ... as de aranha e as outras, as que se refugiam no pretexto da música para apertar laços...



podem ouvir o flávio

aqui http://www.destilart.com/
e aqui http://www.myspace.com/2duques

;)

Susana

junho 13, 2009

A Casa Azul #3

Chego de manhã. Agora a Casa é um caixote de surpresas com céu e terra lá dentro. Mostram-me as traves mestras, que afinal são de cartão e repenso a história da família que tomou estas paredes de assalto... como se têm vindo a recriar!

Quatro da tarde e as nuvens entram em casa. Cheira a carvão e na mesa estendem-se as dúvidas para mais uma refeição. Esta família vive numa estação imaginária e degusta as gotas que caem como se de um sopro húmido se tratasse...

Agora é Verão. O João pensa no par de calções que vai vestir amanhã. Pensa que a Casa guardará esse segredo.
Agora é Primavera. A Susana pensa nos sapatos que lhe pode oferecer amanhã. Pensa que a Casa agradecerá o presente.
Agora é Inverno. O Jorri pensa nas paredes que tem de voltar a cobrir. Pensa que a Casa beneficiará do conforto.
Agora é Outono. O Mané pensa em despir os telhados para deixar a luz entrar. Pensa que a Casa compreenderá a confiança.

Finalmente de volta, reunidos numa mesa de cozinha. Há cebolas, feijões, abóboras e laranjas à disposição e todo um leque de culturas em fase de plantação. Fala-se do barulho dos instrumentos, dos sons que se registam em silêncio e a Casa insiste em ser o futuro, em dar as respostas que não sabemos querer.

Há quem pinte paredes para creditar o passado, outros há que pintam portas para depois as usar. A lua acende-se antes da noite e a Casa respira de alívio quando percebe que somos mais do que o que trazemos. Eu tomo o ar de volta e abalo. Em jeito de nota lhe explico que sou como gotado de resina de vida que também sei que ela tem.

SofiaSilva

maio 15, 2009

"susana queria voar"





no intervalo dos dias, ainda com o pó da estrada nos ombros, a sola dos sapatos quente, respiramos fundo, concentrados nos movimentos vitais - inspirar, expirar, inspirar, expirar...
de vez em quando é preciso parar, olhar para trás, porque a velocidade a que passamos por pessoas especiais nos distrai de gestos que são únicos e são importantes.
o luís é uma dessas pessoas, e tem tanto de encanto como de talento - ele escreve, desenha, fotografa, filma... algo me diz que ainda vamos ouvir falar muito neste senhor! :)
há uns dias ,o luís ofereceu-me este wallpaper, com o título "susana queria voar"! quis partilhar convosco, pois é delicioso e intuitivamente certeiro!! :D

obrigada, meu querido amigo*
(e não é que voei mesmo?!!!!)


susana

abril 22, 2009

Fnac Viseu 2009 (Memórias fora de tempo)


De quando em vez, amigos que encontramos na estrada, enviam-nos as memórias de dias passados.
Desta feita as fotos e desenhos são do nosso amigo Luis Belo (http://luisbelo.com ou http://luisbelo.blogspot.com/)
Thank you Luis.
JoaoRui
Jorri, Fnac Viseu, 8 de Abril de 2009

Joao Rui, Fnac Viseu, 8 de Abril de 2009

Susana, Fnac Viseu, 8 de Abril de 2009

Fnac Viseu 2009 (Memories out of time)
From time to time, friends that we meet down the road send us memories o past days.

This time, the photos & drawing are of our friend Luis Belo (http://luisbelo.com ou http://luisbelo.blogspot.com/)
Obrigado Luis.

JoaoRui

março 26, 2009

Café-Concerto Torres Novas ::: 7. Março

Não é todos os dias que temos o prazer de receber mimos deste nível. A Tânia desenhou-nos enquanto tocávamos no Café-Concerto em Torres Novas, a 7 de Março.
Lembramo-nos bem de uma menina de sorriso aberto e simpático e olhar atento a rabiscar e, afinal, era para nós!!! Como achamos que o desenho está fantástico, tínhamos que partilhá-lo convosco! :D

Obrigada, Tânia*


(clique na imagem para ampliar)

It is not every day that we are pleased to receive cuddles of such high class. Tania drew us as we played at the Cafe-Concerto Teatro Virginia in Torres Novas on the 7th of March.
We remember well a girl of an open smile and friendly eyes, scribbling and, after all it was for us! Because we think the design is fantastic, we had to share it with you! : D
Thanks, Tania *