João Rui
abril 24, 2012
A quietude dos passos [23.04.2012 Bremen – Alemanha]
Se há dias em que
a estrada nos embala até ao estertor do dia, outros os há em que o seu balouçar
é feito de tão poucas palavras.
João Rui
The quietness of the steps
[23.04.2012 Bremen - Germany] If there are days when the road cradles us unto
the death of the day, there are others where its swing is made of so few words.
João Rui
João Rui
abril 23, 2012
A temperatura do sangue [22.04.2012 Hannover – Alemanha]
Quis hoje a fortuna que hoje a chuva fosse a nossa companheira de viagem. E que magnífica companhia. Ornamentada com anéis de electricidade, seguiu-nos durante todo o caminho até Hannover.
Mas como dizia, o termómetro das noites é outro. Contar-te-ia a temperatura que estava se houvesse forma de saber qual o ponto de ebulição do sangue. Talvez haja, mas não dentro do coração.
João Rui
The temperature of the blood [22.04.2012 Hannover – Germany] Today fortune made the rain our traveling companion. And what a wonderful company. Ornamented with rings of electricity, it followed us all the way to Hanover. But as I said, the thermometer of the nights is of another kind. I would tell you of the temperature if there was a way of knowing the boiling point of the blood. Perhaps there is, but not inside the heart. João Rui
abril 22, 2012
Da Janela do quarto [21.04.2012 Bremen – Alemanha]
Dizem-me que também aqui é primavera; e que este inverno, como eu lhe chamo, é apenas memória minha das portas do mar. Talvez assim seja: da janela deste meu quarto, os pássaros têm estado a amontoar penas e sonhos e migalhas de árvore nos galhos mais altos delas – como se fossem ninhos. Mas de cada vez que assomo ao parapeito, os meus olhos são recebidos por sombras e véus negros de corvos ruidosos. E no olhar deles antevejo o seu engenho; passamos assim estas manhãs primaveris, escondidos entre a sua penujem ainda mais negra que esta solidão. Não fossem estas noites aquecidas pelo verão das vozes de quem nos veio ouvir, também eu pertenceria ao seu ninho – e seria eu o estranho que me receberia de negro.
João Rui
From
the room window [21.04.2012 Bremen - Germany] They
tell me that here is also spring time; and that this winter, as I call it, is only
my memory from the doors of the sea. It may be so: from the window of my room,
the birds have been piling feathers and dreams and crumbs of trees in their
upper branches - like nests. But every time I come to the parapet, my eyes are
greeted by the shadows and black veils of noisy crows. And in their stare I
envision their skill; this is how we get by these spring mornings: hidden among
their feathers even darker than this solitude. If it were not for these nights
warmed by the summer voices of those who came to hear us, I would also belong
to their nest - and it would be I, the stranger that would receive me in black.
João Rui
abril 21, 2012
O Bosque [20.04.2012 Osterholz-Scharmbeck – Alemanha]
Por estranho que pareça, os trilhos que hoje percorremos em torno do palco, eram feitos de terra e ornados por grinaldas de pássaros. E de tudo o que os olhos poderiam daí abarcar, guardaram lugar para um barco negro: o Bredbeck Geist, atracado em terra seca, como se fosse uma casa para os corvos da floresta.
Rodeados por eles, esperámos até ao momento em que no grande salão não houvesse espaço para mais uma única pessoa. E assim partimos quando esse fantasma fincava os dentes no leme.
João Rui
The forest [20.04.2012 Osterholz-Scharmbeck – Alemanha] Strange as it might seem, the paths we took to the
stage today, were made of earth and ornamented with a garland of birds. And of all
the eyes could see from there, they saved a place for a black boat: the
Bredbeck Geist. Standing there in dry land, as if it was a house for the crows
of the woods. Surrounded by them, we waited in the grand saloon, until there
was no place for a single person more. And like this we sailed, while this ghost
was sinking his teeth in the rudder. João Rui
abril 20, 2012
A suspensão do segredo [19.04.2012 Groningen – Holanda]
Como poderia eu explicar-te o delírio que ocorre à construção do meu bom assassino? Tenho a certeza que existe uma certa matemática que assiste a todo este processo da construção de uma canção. Mas quanto a mim, o que mais posso é deixar-te observar as notas de rodapé que abandonei na solidão do caderno negro – e que agora aí aguardam pacientes o seu lugar.
João Rui
The suspension of the secret [19.04.2012 Groningen – The Netherlands] How could I explain to you the lingering
delirium of the construction of my good assassin? I am sure that there is some
math that assists this entire process of building a song. But as for me, the
most I can do is to let you look at the footnotes I abandoned in the solitude
of the black book - and where they patiently await their place. João Rui
Do Banquete [18.04.2012 Oldenburg – Alemanha]
Acostumei-me a nada aguardar do pouco que a vida me poderia reservar. Então, cada golfada de ar é um banquete e cada pétala um manjar. Assim, as parcas oferendas que me concede o engenho nesta antecâmara de silêncio, guardo-as debaixo da pele até que o sangue as seduza ao seu fim.
Hoje, a noite que nada me prometera, trouxe-me mais do que eu aguardava – e tivemos que retornar a subir os degraus do palco porque os aplausos do que seria o fim não nos permitiam outra casa.
João Rui
Of the banquet [18.04.2012 Oldenburg – Germany] I’ve grown accustomed to wait nothing from the little that life could have in store for me. So, every breath of air is a banquet and every petal a feast. Thus, the small offerings my mind allows me in this room of silence, I keep them under my skin until the blood seduces them to their end. Today, the night, who had promised me nothing, brought me more than what I was waiting for – and we had to go back up the stairs to the stage because the applauses of what would be the end , did not allows us any other home. João Rui
abril 18, 2012
O Cais [17.04.2012 Bremen – Alemanha]
Junto ao
cais de Bremen há barcos que conhecem o peso da ausência marítima: onde os
pássaros pendurados nos mastros entregam as suas penas ao vento: oscilando como
resquício de incêndio e desaparecendo cada vez que um dos meus passos sucede o
outro. Há também promessa de partida. É sempre junto ao cais que me recordo dos
que partiram não por amor ao mar, mas por despeito da terra. É sempre junto ao
cais que me recordo dos que partiram. Dos que partiram sem que deles me possa
alguma vez apartar.
E como me
faltam.
João Rui
The waterfront [17.04.2012 Bremen – Germany] Near the pier of Bremen there are
boats who know the weight of the absence of the sea: where birds hanging on the
masts deliver their feathers to the wind: oscillating like reminders of fire
and disappearing every time one of my steps follows another. There is also
promise of departure. It is always by the waterfront that I remember of the ones
that departed not out of love for the sea, but out of spite from the earth. It
is always by the waterfront that I remember of the departed. Of those who left and
of whom I can never depart. And how they are sorely missed. João Rui
abril 17, 2012
O vento de Bremen [16.04.2012 Bremen – Alemanha]
Encontrei no
hábito da escuridão o sorriso que me devolveria a ti. E entre os dedos onde se
adivinhavam os outros do silêncio, restava-me o ar que te não retornava a mim. Mas
o frio que percorria as ruas de Bremen quebrava-se junto à porta do Litfass,
onde o calor nos veio entregar o coração.
João Rui
The wind of Bremen [16.04.2012 Bremen – Germany] in the old habit of the darkness, I
found the smile that would bring me back to you. And between the finders where
one could guess the others of the silence, I had but the air that would not
return you to me. But the cold that ran through the streets of Bremen was
breaking by the door of Litfass, where the warmth came to gives us her heart.
João Rui
abril 16, 2012
De Nul [15.04.2012 Hengelo – Holanda]
Enganaram-me as voltas do vestido deste frio – o vento que se erguia em cada estocada certeira deixou-me acreditar que não haveria silêncio onde içar as velas destas canções. Quão acertado foi o passo neste erro: recebeu-nos em êxtase o coração de Hengelo, no palco do De Nul. E como se isto não bastasse, a insistente turba convidou-nos para outra sala de concertos situada a cerca de 400 metros da primeira. O sorriso do nosso Sebastião e a promessa de uma última despedida foi o suficiente para nos deslocarmos até à segunda sala de espectáculos e reinventar o concerto com outras canções e com instrumentos tão diversos como as histórias entre elas.
E aqui, coisa rara: todos os anos é eleito um poeta da cidade. Este, de cabeça pousada nas mãos agradeceu-nos as histórias. Contou-me também que o edifício era Napoleónico – magnífico! E não o sendo, não menos magnífica invenção.
De coração cheio abandonamos Hengelo, a caminho de outra cidade, noutro país.
João Rui
Zero [15.04.2012 Hengelo – Holanda] The turns of the dress of this cold, deceived me
– the wind that rose in each blow led me to believe there would be no silence
where to raise the flags of these songs. How certain was the step in this
mistake: the heart of Hengelo received us in ecstasy in the stage of De Nul.
And as if this was not enough, the insisting crowd invited us to another
concert room about 400 meters from the first. Sebastião’s smile and the promise
of a last farewell was enough to go there and reinvent the concert with other songs
and instruments as diverse as the stories between them. And a rare thing: here,
every year the town’s poet is elected: and him, with his head hung on his hands
thanked us for the stories. He told me that the building was Napoleonic –
Magnificent! And that, not being the truth is no less of a magnificent
invention. With our hearts full, we leave Hengelo, heading for another city in
another country. João Rui
abril 15, 2012
Fechaduras [14.04.2012 Osnabrück– Alemanha]
Regressamos
a Alemanha depois de um breve intervalo em terras Belgas. E com um pé num país,
aguarda-nos amanhã ainda outro. E sem esperanto que me possa auxiliar na
conquista das vagas da língua, estugo o passo neste parapeito linguístico que
ergue fronteiras sem fechaduras.
João Rui
abril 13, 2012
Lerchenstraße [12.04.2012 Hamburg – Deutschland]
Veio aqui a
esta rua visitar-me um sonho antigo – e as mãos, tão alvas como a memória as
guarda, conduziam-me por entre as margens deste jardim de tolos; e o vento,
parco na sua atenção, fustigava-me os passos. Que embriaguez esta que me
esqueceu das horas onde supostamente habitam agora os meus minutos. Mas guardemos
para a noite o que dela não soubermos roubar.
Ainda não me
tinha esquecido do abraço de Hamburgo que hoje nos voltou a afagar as canções.
Mas ainda
aqui voltaremos antes de partir...
Poderá o
coração completo achar-se apenas meio, ao adivinhar o sussurro de inesperada
valsa?
João Rui
Lerchenstraße [12.04.2012 Hamburg – Germany] An old dream came to visit me in
this street - and the hands, white as my
memory remembers them, were leading me through the shores of this garden of
fools; and the wind, in its distraction tore away at my steps. What was this drunkenness
that made me forget of the hours where my minutes now live. But let’s keep for
the night what is of her that we know not how to steal. I had not forgotten the
embrace of Hamburg that held our songs tonight once more. But we’ll return to
this place before we leave. Can a full heart find himself only half when
guessing the whisper of an unexpected waltz? João Rui
abril 11, 2012
Casa [11.04.2012 Bremen – Alemanha]
Enfim
chegados a Bremen, que será a nossa casa durante as próximas três semanas. É a
partir daqui que partimos para todas as partes; onde viremos
descansar o que sobrar do delírio das canções.
Gostava de
te poder adiantar mais palavras sobre a cidade, mas a noite já roubava as
formas do pouco que os olhos abarcavam nesta chegada tranquila.
João Rui
Home [11.04.2012 Bremen – Germany] At least we arrive Bremen, that will
be our home for the next three weeks. ’Tis from here that we will part for
everywhere. Where we will come to rest what is left of the delirium of the
songs. I’d like to give you some more words on the city, but the night was
already stealing the little my eyes could see in this quiet arrival. João Rui
A testemunha [10.04.2012 Nijmegen – Holanda]
Segundo ouvi
dizer, aqui a chuva é uma presença constante. É como se fora um colar de
pérolas partido em torno do pescoço desta bela terra – e como se lhe faltasse a
destreza, as mãos não as impedem de se precipitar sobre este o corpo.
Esta noite,
em torno da Távola adoptada cantámos os velhos mitos que nos transformaram os
lábios. Talvez tenha transformado o coração das testemunhas. Assim o ouvi dizer
ao abandonar este tugúrio na promessa do retorno.
João Rui
The Witness [10.04.2012 Nijmegen –
The Netherlands] According to what I heard, here the rain is of constant
presence. It’s as though as if it was a broken pearl necklace around the neck
of this fair land – as if her dexterity was absent, the hands won’t stop them
from falling over this body. Tonight, around this round table, we sung the old
myths that transformed the lips. Maybe I have transformed the heart of the
witnesses. So I heard as I was leaving this shack in the promise of return.
João Rui
abril 09, 2012
Os segredos do gelo [08.04.2012 Bakhuizen – Holanda]
À medida que
nos deslocamos para norte vamos encontrando a razão desta neve que ainda não
passa de gelo, enquanto os campos de tulipas ausentes aguardam a nossa chegada.
O sorriso de
rever o Patrick e a Annette já seria o suficiente para merecer a viagem, mas
aguarda-nos um salão repleto dos muitos que assim escolheram celebrar a Páscoa.
Que magnífico silêncio ocupava o espaço das flores que aqui adivinhava. E quantas
histórias e segredos entre canções encontraram o caminho para o coração de quem
aqui veio. Sem palavras que pudessem substituir melodias, urgiram-nos ao palco
para uma 19ª canção que nos despediu deste transe.
Momentos
antes de abandonar esta segunda casa, o Patrick confidenciou-me um sonho: mas como
se um abismo revelasse os seus segredos a outro abismo, cedo conheceram a queda
nas profundezas de uma memória feliz.
João Rui
The secrets of Ice [08.04.2012 Bakhuizen – The Netherlands] As we move north, we found the
reason why this is still not snow, but ice. Meanwhile the tulip fields await
our arrival. The smile of Patrick and Annette would be enough to warrant the trip,
but expecting us was a room full of so many who chose to celebrate Easter in
this fashion. What a magnificent silence occupied the space where flowers should
be. And how many stories and secrets between songs found their way into the
hearts of those who came here. And since words could replace no melodies, they urged
us on stage for a 19th song, that gave us away to the night. Moments before
leaving this second home, Patrick confided in me a dream: but as an Abyss
reveals its secrets to another abyss, soon they met the drop in the depths of a
happy memory. João Rui
abril 07, 2012
Le Gros-Horloge [06.04.2012 Rouen – França]
Como se me pudesse esquecer das horas ou de tudo o mais que se perde entre elas...
João Rui
Le Gros-Horloge [06.04.2012 Rouen – France] As if I could forget the hours or everything else that is lost between them... João Rui
abril 06, 2012
“À la vitesse d'un cheval au galop” [04.04.2012 Mont Saint-Michel – França]
Quis a viagem que viéssemos encontrar o que o mar ainda não levou: e é no tempo que separa uma maré de outra que se encontra a coragem para percorrer as escadas cavadas na rocha.
Talvez que o não leve. Ou talvez isto já seja apenas sonho.
João Rui
“À la vitesse d'un cheval au galop” [04.04.2012 Mont Saint-Michel – France] As fate would have it, we came to find what the sea has not taken yet: and it's in the time that stands between the tides that we find the courage to go up the steps carved in the rocks. Maybe he won't take it. Or maybe this is already but a dream. João Rui
abril 05, 2012
A casa dos Corsários [04.04.2012 Saint-Malot – França]
Parece que ainda ontem entretínhamos o silêncio da noite com a entrega de novas melodias à eternidade. Aproveitávamos a ausência dos bretões para continuar a construir as canções do conceito do Drunken Sailors & Happy Pirates. Talvez que assim estivesse escrito: que os pianos finais de algumas músicas viessem a ser gravados tão longe da casa de onde temos estado ausentes.
Mas hoje tudo isso já se tornou memória: o tempo não se demora aqui. A viagem prossegue para norte.
João Rui
The home of the corsairs [04.04.2012
Saint-Malot – France] It seems like only yesterday we were entertaining the
silence of the night delivering new melodies to eternity. We took the chance of
the absence of Britons to continue building the songs from the concept of Drunken
Sailors & Happy Pirates. Perhaps it was written like this all along: that the
pianos of some songs were to be recorded so far from the home where we've been absent.
But today all this already became a memory: time wastes no more; The journey
continues to the north. João Rui
abril 04, 2012
a 50 dias de casa (França, Holanda Alemanha, Suíça, Bélgica, Espanha) [31.03.2012 Bretanha – França]
São 6 países e 35 concertos, o que nos aparta de casa. Então para que não nos falte o ar nos primeiros Km, decidimos partir na madrugada da Primavera.
Avançamos primeiramente para uma casa que bem conhecemos: o Le Galopin, situado em pleno coração da Bretanha. Mas talvez me tenha equivocado no número de países. Talvez sejam sete e não seis, porque como o Fif diz: “a Bretanha é um país dentro de outro país”.
1600km de pouco sol e menos chuva; e sei que a dado momento vamos perder a conta dos km, mas por ora, enquanto o engenho não me falta, vou guardando no coração o número passos que vou contando desde a porta do mar.
E como se não existisse tempo entre a partida e a chegada, num instante assomamos o palco Bretão para apresentar o corpo deste novo álbum. Esta é terra de marinheiros, mas foi a sua sobriedade que nos obrigou, no fim do concerto terminar, a retornar ao palco três vezes antes que tivesse que anunciar “já não temos mesmo mais canções para vos poder cantar hoje”.
E no espaço onde dormiam as canções que não fazíamos conta de trazer ao palco, ficou o sorriso pela sua súbita chamada.
“Obrigado” é palavra demasiado curta para conter apenas as palavras que transbordam do coração.
As outras, guardo-as para a solidão das noites.
Joao Rui
50 days from home (France, The
Netherlands, Germany, Switzerland, Belgium, Spain) [31.03.2012 Brittany -
France] 6 countries and 35 concerts is what sets us apart from home. So lest we
miss the air in the first kilometers, we left by the dawn of Spring. Our first destiny
is a house that we know well: Le Galopin, situated in the heart of Brittany.
But perhaps I have mistaken the number of countries. Perhaps they are seven and
not six, because as Fif says: "Bretagne is a country within another
country." 1600km of little sun and less rain; and I know that with given
time we'll lose count of the miles. But for now, while skill assists me, I will
hold in my heart every single step that I count from the gates of the sea. And
as if there was no time between departure and arrival, in an instant we take
flight of the stage to present the body of this new album. This is a land of
sailors, but it was their sobriety that forced us, at the end of the concert,
to return to the stage three times before I had to announce "We don’t have
any more songs to sing for you today." And in the space where these
unexpected songs slept, there lies now the smile of their unexpected
appearance. "Thank you" is a too short sentence to contain just the
words that overflow from the heart. The others, I keep them to the solitude of
the night. Joao Rui
janeiro 22, 2012
4401Km [21.01.2012 Madrid – Espanha]
De tanto passear em torno de ti, hoje quis o destino que fôssemos direitos ao teu coração. Regressamos ao princípio quando aqui chegámos pela primeira vez; mas talvez que na altura as fronteiras não estivessem tão apagadas como agora que nos recebes realmente como irmãos.
Abandonamos o palco ladeado por tantos olhos onde encontramos os nossos, que maior dádiva não poderíamos daqui levar hoje.
E agora aqui, algures na estrada entre Espanha e Portugal, avançamos através da noite com este sabor Madrileno ainda entre as mãos.
Levamos o coração ainda mais cheio do que aquela sala onde nada mais caberia senão estes Marinheiros Embriagados e estes Piratas Felizes que nos aguardam junto ao mar.
Muchas gracias amigos.
En verdad que vos echábamos de menos.
João Rui
Abandonamos o palco ladeado por tantos olhos onde encontramos os nossos, que maior dádiva não poderíamos daqui levar hoje.
E agora aqui, algures na estrada entre Espanha e Portugal, avançamos através da noite com este sabor Madrileno ainda entre as mãos.
Levamos o coração ainda mais cheio do que aquela sala onde nada mais caberia senão estes Marinheiros Embriagados e estes Piratas Felizes que nos aguardam junto ao mar.
Muchas gracias amigos.
En verdad que vos echábamos de menos.
João Rui
4401Km [21.01.2012 Madrid – Espanha] Of walking so mucha round you, fate had it that today we went straight to your heart. We go back to the beginning when we arrived here for the first time; but maybe then, the frontiers were not as blurred as they are now. Now that you receive us truly as if we were your brothers. We leave the stage that is sided by so many eyes where we find our own, that it would be impossible to take a better gift than this. And now, as we are somewhere in the road between Spain and Portugal, we move through the night with this Madrid taste in our hands. We take our heart even fuller than that room, where nothing else would fit but these Drunken Sailors & Happy Pirates that await us by the sea. Muchas gracias amigos. En verdad que vos echábamos de menos. João Rui.
janeiro 21, 2012
El principio de la vuelta [20.01.2012 Sevilla – Espanha]
Ao entrar em Sevilla, a memória devolve os passos do passado, quando por aqui passámos em 2010 numa viagem que terminou em Málaga e a partir de onde caminhámos para os outros 10 países onde o lobo nos acompanhou. Dessa outra vez, não houve tempo para ouvir o silêncio dos outros. Hoje o coração ouviu esse silêncio… e que magnífico silêncio o desta tripulação que transbordou hoje a nossa embarcação.
As ruas são de outra cor quando a elas voltamos depois destes breves instantes em que o palco nos despe.
João Rui
As ruas são de outra cor quando a elas voltamos depois destes breves instantes em que o palco nos despe.
João Rui
El principio de la vuelta [20.01.2012 Sevilla – Espanha] As we enter in Sevilla, the memory returns the footsteps of the past, when we were here in 2010 on a journey that ended in Malaga and from where we went to the other 10 countries where the wolf followed us. Then, there was no time to listen to the silence of the others. But today the heart heard that silence ... and what wonderful silence was this, of this crew that overflowed our vessel today. The streets are of a different color when we return to them after these brief moments when the stage undresses us. João Rui.
janeiro 20, 2012
El calor de la nieve [19.01.2012 Málaga – Espanha]
A estrada que nos leva de Múrcia a Málaga é um caminho por entre os montes. Lorca, deserto, silêncio: resquícios de neve que ornamentam o sopé destas montanhas alvas. Seria de esperar o punhal frio nas mãos deste vento, mas o calor que encontramos dentro da sala que nos aguardava é tal, que o corpo se esquece do frémito deste doce inverno.
João Rui
El calor de la nieve [19.01.2012 Málaga – Spain] The road that takes us from Murcia to Málaga is a path between the hills. Lorca, desert, silence: wrecks of snow that embellishes the feet of these white mountains. One would expect the cold dagger in the hands of this wind, but the warmth that we found in the room that awaited us was such that the body forgets the trembling of this sweet winter. João Rui.
Las Calles de Neuman [18.01.2012 Murcia – Espanha]
Vamos descobrindo segredos em cada cidade. Nas igrejas que acodem a cada rua com o silêncio que ali nos aguarda e nos olhos de quem decidiu que a nossa chegada era um murmúrio impossível de evitar.
50 Pessoas, talvez mais, cantavam numa única voz o que um piano suspirava. Segredos que se desvelam nas palavras de Paco Neuman que nos confessa a origem das coisas. ¡que ilusión!
Neuman – que curioso sorriso lhe encontro, às voltas nos corredores desta casa que se tornou nossa no coração de quem nos acolheu.
João Rui
50 Pessoas, talvez mais, cantavam numa única voz o que um piano suspirava. Segredos que se desvelam nas palavras de Paco Neuman que nos confessa a origem das coisas. ¡que ilusión!
Neuman – que curioso sorriso lhe encontro, às voltas nos corredores desta casa que se tornou nossa no coração de quem nos acolheu.
João Rui
Las Calles de Neuman [18.01.2012 Murcia – Spain] We discover secrets in every city. In the churches that come running to every street with the silence that awaits us there, and in the eyes of those who decided that our arrival was a murmur impossible to avoid.50 people, maybe more, in a single voice, were singing what a piano was sighing. Secrets that are unveiled in the words of Paco Neuman, who confesses the origin of things. ¡que Ilusión! Neuman - such a curious smile I find in him, as he turns round in the halls of this house that became ours in the heart of those who welcomed us. João Rui.
janeiro 18, 2012
Por el Mar [17.01.2012 Valencia – Espanha]
Seguimos junto ao mar e ainda sem tempo para aqui repousar mais do que o suficiente para que o coração faça de ti memória graciosa.
João Rui
João Rui
By the sea [17.01.2012 Valencia – Spain] we follow by the sea, and still without time to rest more than enough at least to let the heart turn you into a graceful memory. João Rui.
janeiro 17, 2012
Gràcies [16.01.2012 Barcelona – Espanha]
Será possível escolher quem à tua embarcação sobe para dela não mais sair? Se aqui repousa tudo aquilo se recorda, de igual forma aqui dorme o que não se esquece. Então somos em partes similares o que somos e o que queríamos ser. Em construção. Em permanente construção. Como esta Sagrada Família, que desde que há memória se encontra envolta desta maquinaria que constrói o sonho num bastidor público. E já tão distante do que era quando foi esboço silencioso. Que estranho mar, este que não me guarda rancor no abandono.
Encontramos Barcelona na companhia dos melhores companheiros de viagem: Dani y Elena, que conhecem as ruas como nós conhecemos as vagas da maré. E esta cidade parece ter-nos encontrado a nós… Gràcies!
João Rui
Encontramos Barcelona na companhia dos melhores companheiros de viagem: Dani y Elena, que conhecem as ruas como nós conhecemos as vagas da maré. E esta cidade parece ter-nos encontrado a nós… Gràcies!
João Rui
Gràcies [16.01.2012 Barcelona – Spain] Is it possible to choose whom rises to your vessel not to leave anymore? If here lays all one remembers, it’s also where all one cannot forget sleeps. So we are in an equal measure all we are and all we wanted to be. In construction. In permanent construction. Like the Sacred Family, that is wrapped with this machinery that builds the dream in a public backstage since there’s memory it. And it rests so far away from what it was when it was but a silent sketch. What strange sea is this that does not hold a grudge towards me in the abandonment. We find Barcelona in the company of the best travel companions, Dani and Elena, that know the streets as we know the tides. And this city seems to have found us… Gràcies! João Rui.
janeiro 16, 2012
La caída de César Augusto [14.01.2012 Zaragoza – Espanha]
Há lugares onde a despedida é coisa impossível porque nos acompanham em cada passo os olhos que deixamos para trás. São os escolhos que a memória nos devolve ao entrarmos desprevenidos nos portos que abandonamos; a promessa do fiel retorno. As ruas da cidade são-me tão familiares como se as houvera continuado a calcorrear quando o horizonte continuava a sua história.
À hora que aqui chegamos, a Avenida deste César é apenas silêncio e ausência de alcatrão e gente. Aguardar-nos ia uma sala vazia, não fora esta cidade uma eterna surpresa de todas as vezes que aqui prendemos as amarras. Porque enquanto recolhíamos ao nosso silêncio na rua, a sala foi enchendo até que nem mais um marinheiro caberia nesta embarcação.
Que silêncio doce este que nos vieram ofertar.
Como regressar onde de nunca partimos?
João Rui
À hora que aqui chegamos, a Avenida deste César é apenas silêncio e ausência de alcatrão e gente. Aguardar-nos ia uma sala vazia, não fora esta cidade uma eterna surpresa de todas as vezes que aqui prendemos as amarras. Porque enquanto recolhíamos ao nosso silêncio na rua, a sala foi enchendo até que nem mais um marinheiro caberia nesta embarcação.
Que silêncio doce este que nos vieram ofertar.
Como regressar onde de nunca partimos?
João Rui
The fall of Augustus Caesar [14.01.2012 Zaragoza – Spain] There are places where farewell is an impossible thing, for with eyes we leave behind follow our every step. These are the pitfalls that our memory returns as we sail back into the ports we left behind; the faithful promise of return. The city streets are as familiar to me as if I had never left them while the horizon was proceeding with its story. By the time we arrive, the Avenue of this Caesar is but silence and absence of people and tar. And if this city was not an eternal surprise every time we hold our moorings here, we would have had an empty room waiting for us. For while gathered in our silence, the room flooded with sailors until there was no more space left in this vessel. T’was a sweet silence; this that they came to offer us. How does one return to the places one never truly left?
João Rui
João Rui
janeiro 15, 2012
Bihar arte [13-01-2012 Donostia y Bilbao – Espanha]
Afinal que palavras poderia eu escolher para vos agradecer, senão as vossas feitas minhas? Os lábios desconhecem ainda a pronúncia deste mar cantábrico que nos reconhece no anonimato das ruas e avenidas destas cidades.
- “Gracias por vuestra música”
- Eskerrik Asko.
João Rui
Bihar arte [13-01-2012 Donostia y Bilbao – Espanha] After all, what words could I choose to thank you if not yours that I have taken for my own? The lips are still strangers to the accent of this Cantabric sea that recognizes us in the anonymity of the streets and avenues of these towns. - “Gracias por vuestra música”. Eskerrik Asko. João Rui
- “Gracias por vuestra música”
- Eskerrik Asko.
João Rui
Bihar arte [13-01-2012 Donostia y Bilbao – Espanha] After all, what words could I choose to thank you if not yours that I have taken for my own? The lips are still strangers to the accent of this Cantabric sea that recognizes us in the anonymity of the streets and avenues of these towns. - “Gracias por vuestra música”. Eskerrik Asko. João Rui
janeiro 12, 2012
A estranha valsa [12.01.2012 Oviedo – Espanha]
As mãos do sol não conhecem forma de nos acompanhar nesta dança, onde a neblina se esqueceu das voltas que o seu vestido haveria de entregar para que se adivinhasse o chão deste salão.
Mas à porta desta estranha valsa enredada nas montanhas, aguardava-nos o calor dos olhos de Oviedo.
Gracias.
João Rui
Mas à porta desta estranha valsa enredada nas montanhas, aguardava-nos o calor dos olhos de Oviedo.
Gracias.
João Rui
The strange waltz [12.01.2012 Oviedo – Espanha] The hands of the sun have no knowledge of how to accompany us in this dance, where the dark mist forgot the turns its dress would have to give so he could know the floor of this saloon. But by the door of this strange waltz in between the hills, the warmth of Oviedo’s eyes was waiting for us. Gracias. João Rui
janeiro 10, 2012
La línea invisible de la frontera [10.01.2012 A Coruña – Espanha]
Voltamos à estrada que nos leva para longe deste mar, atravessando uma fronteira que já não consegue separar o sabor da terra – talvez nunca o tenha feito e fosse apenas uma linha mal desenhada nas cartas antigas onde se repartiu o indivisível.
Falavam-me do vento frio que aqui encontraria boa forma de me estalar os ossos, mas a torre de Hércules ter-se-á encarregue de o manietar, porque nem vento nem frio me vieram acordar onde dormia, junto do sussurro dos pássaros aninhados à janela do meu quarto.
João Rui
Falavam-me do vento frio que aqui encontraria boa forma de me estalar os ossos, mas a torre de Hércules ter-se-á encarregue de o manietar, porque nem vento nem frio me vieram acordar onde dormia, junto do sussurro dos pássaros aninhados à janela do meu quarto.
João Rui
The invisible line of the frontier [10.01.2012 A Coruña – Espanha] We’re back on the road that takes us far away from this sea, crossing a frontier that can’t separate the taste of the earth anymore – maybe it might have never succeeded in doing so and it was nothing but a mere line badly drawn on the old maps where they divided what could never be. They told of the cold that would find a good way to break my bones here, but maybe the tower of Hercules took the ground and turned it into impossible. For neither the wind or the cold came to wake me where I slept, near the whispers of the birds nested by the window of my room. João Rui
dezembro 03, 2011
12 Anos
Não, não
parece que foi ontem. Há demasiados baús a transbordar de memórias no convés do
nosso coração. Retratos velhos, cordas partidas, laços quebrados e sorrisos…
tralhas e tesouros que ali têm a mesma autoridade. Não se escolhe o que se
guarda porque as cicatrizes têm uma vontade própria que nos escapa – e nós
somos o que resta do que elas nos permitem. Assim se foi construindo a nossa
identidade até ao que hoje somos e que já está em mutação como estava antes e
estará depois. E enquanto este convés nos for um estranho, nós seremos dele
atentos perscrutadores.
Há pouco
menos dessa dúzia de anos, o Nuno Ávila escolheu uma K7 com umas canções nossas
que havíamos entregue à fita, para passar na rádio: eram as primeiras canções
de a Jigsaw. E há algo de mágico e irrepetível nesse momento em que pela
primeira vez alguém escolhe a nossa música para com ela preencher as ondas de
rádio; e é a nossa canção e não outra que naquele momento nos enfrenta. É como
se te arrancassem o coração para que o pudesses ver melhor. E como se não
bastasse esta bondade dele, anos mais tarde, o Nuno Ávila é responsável pela
edição do nosso primeiro EP From Underskin. Sim, esse mesmo Nuno Ávila da Ruc.
Esse da fé no nosso coração que nos comove e nos acompanha em cada acorde. Há
um baú com o teu nome dentro do nosso convés e és sempre bem-vindo à nossa
embarcação embriagada.
Perdoe-nos
quem nos tem acompanhado todos estes anos se hoje decidimos falar apenas deste
bom amigo que foi nossa pedra angular quando nem sequer sabíamos por onde
iniciar a construção da nossa casa. Obrigado a todos vocês, Marinheiros
embriagados & Piratas felizes.
João Rui,
Susana Ribeiro, Jorri
a Jigsaw
novembro 01, 2011
Drunken Sailors & Happy Pirates (Júbilo Mortal, por Luís Quintais)
Artwork: Luis Belo
Boa noite,
Este é o
nosso novo álbum, que a partir de hoje, dia 1 de Novembro já se encontra
disponível para compra, empréstimo ou roubo. É um álbum conceptual acerca do
qual poderão descobrir mais e ouvir um pouco dele através da visita ao
nosso novo site www.ajigsaw.net, onde também as letras
ficarão hoje disponíveis.
Para
comemorar esta edição, oferecemos a música Drunken
Sailors and Happy Pirates para
download durante o mês de Novembro.
Neste novo
trabalho temos o privilégio de ter a Tracy
Vandal (Tiguana Bibles) na voz
da canção "Lovely Vessel" e o contrabaixo do nosso bom amigo Gito Lima (The Soaked Lamb) na
faixa "The Last Waltz". A capa é desenhada pelo Luís
Belo e quem gravou, misturou e masterizou foi o João P. Miranda, no Attack-Release
Studio em Portalegre.
Mas para vos falar do que este álbum trata, deixamos aqui as
palavras do Escritor e amigo Luis Quintais que
assina o texto abaixo.
Obrigado a todos,
João Rui,
Susana Ribeiro, Jorri,
a Jigsaw.
"Júbilo
mortal"
Sobre
«Drunken
Sailors & Happy Pirates»
de
a Jigsaw
Um álbum de canções é também um álbum de
histórias. É esse o lugar da música? Não sei. A música talvez não tenha lugar.
Mas, por vezes, ela tem o peso de uma cortina que se abate violentamente a
nossos pés. É assim a música de A Jigsaw. Sempre foi. Como se agitasse o tempo
por dentro e o esventrasse. Aventura narrativa? Sem dúvida. Quero porém
acreditar que a música ganha porventura o seu lugar, aqui, em A Jigsaw. A voz é
grave, o seu grão é o grão da mais antiga voz. Uma história precisa de uma voz,
de uma voz que a conduza, gravemente. Balada? João Rui diz-me que a palavra é
belíssima. Assim é. E o que era uma balada senão um modo de enfrentar a noite
com uma história? A música (que talvez não tenha lugar) ganhava aí o seu lugar
outra vez. O seu modo de navegação solitária e ardente. Enfrentar a noite, será
a expressão precisa, rigorosa para esta navegação. Não é por acaso que «Drunken
Sailors & Happy Pirates» é título desta aventura em mar alto e
encapelado de experiências e histórias. Não é por acaso também que a canção
homónima termina com este verso: «We must leave now and face the night. The
dark and cold night. Goodnight». Dir-se-ia que depois das histórias contadas,
assim, sob a forma destas baladas que se abatem a nossos pés como uma cortina
pesada, disse, ou antes, como o velame de um navio humedecido duramente por
sortidas intermináveis em mar alto, dir-se-ia que, depois das histórias e da
voz que as persegue sem remissão, esse enfrentar solitário (com a morte por
horizonte) se faz sob o sortilégio de uma forma qualquer de júbilo. Júbilo
mortal. Enfrentamos a noite com a certeza de que há uma estranheza em cada um
nós, e que toda a amizade (toda a empatia que a música faz alucinar), é um
exercício de subjectividades trocadas no território dessa estranheza. Júbilo
mortal porque as canções de A Jigsaw se encontram contaminadas pela morte. A
morte será o horizonte desse mar tumultuado onde navegamos em estado de graça.
A morte surge-nos como o que nos impede o passo, mas a consciência do naufrágio
faz da música um trabalho de incursão no perímetro da beleza luminosa dos
regressos. Sim, os passos estão truncados pela ferrugem que os toma de assalto,
mas, seja como for, embriaguemo-nos de coragem. É sobre isso o
exemplo maior desta música de exílios, viagens, fluidas fronteiras,
instrumentações imoderadas que é «The Strangest Friend»: «a story to be heard,
and a hymn to be sung for all those with dust in their bones / laugh if you
will, cry if you must, this is not weakness it’s rust». O quarto que viemos habitar, sensíveis ao
nosso próximo fim, ao inevitável naufrágio, abre para uma árvore coberta de
corvos. Tudo parece tocado pelo lado mais escuro da noite, e tudo reclama um
ponto de vista que não pode ser outro senão o da beleza. O ponto de vista da
beleza. Essa rapariga à qual suplicamos presença, regresso, figurações do que
só podemos entrever, sabendo que nos deslocamos a passos determinados para o
nosso fim. Sim há morte, mas há sempre uma porta que dá para esse ponto de
vista. O da beleza que queima, que dança entre o ver e o não ver, entre o
visível e o invisível. E sob o signo dessa morte, há uma troca de olhares que
nos indistingue, que nos alia: «There I found my death, between your eyes and
mine». Qual é o lugar da música? A Jigsaw parece dizer-nos que as mais antigas
baladas deveriam voltar para incendiar os nossos dias e as nossas noites, outra
vez. Mostrar-nos como há coisas que não se demonstram ou explicam. Dão-se. O
lugar da música é afinal o de inventar uma afinidade profunda entre a escuridão
recíproca que nos habita. Entre aquele que canta e aquele que escuta, uma mais dolorosa
e inevitável canção se desenha. Talvez uma valsa, a última valsa de uma Roma
queimada como homenagem às figurações da beleza e da morte que perseguem cada
compasso de A Jigsaw. Nero haveria de se orgulhar deste fogo.
outubro 29, 2011
"DRUNKEN SAILORS & HAPPY PIRATES" por ALFRED CRESPO (RUTA 66)
Dia 1 de Novembro
...
Nas palavras de Alfred Crespo, que aqui apresenta "Drunken Sailors & Happy Pirates"
"DRUNKEN SAILORS & HAPPY PIRATES"
La espera ha terminado, y surcando metafóricas aguas regresan unos marineros que parecen cómodos viajando sin cesar. No parecen preocupados por perder de vista sus orígenes, ni por la ausencia de tierra firme bajo sus pies. Quizás porque están seguros de que su destino les conduce a sí mismos, quizás porque su verdad, su música, es de aquí y es de ninguna parte. Rotos los lazos, cortadas las amarras, la libertad es más timón que meta.
Si Like The Wolf les situó en el punto de mira de catadores selectos y sus conciertos les granjearon una creciente legión de admiradores, esta nueva colección de canciones debería hacer el resto, aportar ese enigmático valor añadido que diferencia a las referencias de las simples promesas. Empezaron embarcados en Letters From The Boatman, y su breve pero reflexionada travesía les muestra infinitamente más maduros, sabios como viejos lobos de mar, atentos como timoneles sin resaca, satisfechos como felices piratas. La expresiva voz de Joao Rui, las melancólicas notas aportadas por Susana Ribeiro y las imprevisibles aportaciones del juguetón Jorri avisan desde los primeros compases de “The Strangest Friend”: quien suba a su nave no querrá bajar de ella. Encadenan aciertos, sensibles por momentos (“Crow Covered Tree”), carnales (“Lovely Vessel”), inesperados (¿puede un buque llegar a ese Berlin al que cantó Lou Reed?, escuchen “I’ve Been Away For So Long”), definitivamente evocadores (“Devil On My Trail”).
Al parecer, son de Portugal. Puede ser. O pueden estar jugando al escondite, a proporcionarnos sólo las piezas del puzle que quieren que veamos. Tengan la certeza de que, mientras se escucha su álbum, ellos ya están viajando hacia un nuevo caladero.
No es extraño que Tom Waits se haya rendido a su hipnótico encanto.
Alfred Crespo
(Director de la revista Ruta 66)
outubro 04, 2011
Vila... é tinto e depois
Gerimos todos
vidas paralelas. Aqueles dados às chamadas redes sociais gerem uma série de
vidas virtuais, mas na prática, quem viver aquilo que o tempo biológico
permitir fazer, acaba a gingar por entre as vidas dos amigos, a da família e do(s) amante(s). No centro deste baile está a pessoa singular, essa a trocar de
par por entre os seus outros milhares de Eus.
Primeiro com o
Freud, depois com o Lacan, a humanidade pôde aprender que nomes chamar a estes
duplos que nos assombram e aos outros que tomam conta de nós. Por muito
inoportuno que pareça neste contexto a palavra Autenticidade, tão presa ao
lugar do Imaginário, tão presa ao Id, aplica-se aqui à minha relação com os
Jigsaw, e à relação deles com a sua forma de expressão A maior parte das vezes
não pelo que está, mas pelo que pôde haver, porque se foi.
Não precisa este
albúm de ser ouvido para que se perceba que a Morte tem estado sempre no foro
das histórias dos a Jigsaw. A morte, a par com a esperança. Vejo-as sempre na
boca do João Rui como metáforas dos pequenos elogios fúnebres, quando
deixamos escapar um de nós, quando cedemos demais e nos apagamos. No clímax,
quando nos entregamos e mergulhamos à procura de alguém.
Enquanto
fotógrafa digo que passamos anos à procura do momento em que consigamos estar e
ver e depois olhar. Claro, depois carregar no botão. Claro, depois comunicar.
Mas no plano de trabalho não está nunca a Ideia e está sempre a contemplação da
surpresa. Venho aqui apenas para justificar isto: que levou tempo, mas agora cheguei
a vós! Ao momento que é ao mesmo tempo particular que universal. É, pode ser ou
será, mas eu julgo que seja.
all photos © Sofia Silva, 2011
Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um
enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e
lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado,
e medido pelo colectivo, pelos outros - espelho e limite, cadeia e espaço
imenso, liberdade e nossa conquista.
Luiz Pacheco, A Comunidade
outubro 02, 2011
outubro 01, 2011
"Strange enough", ela não é a nossa melhor amiga
Hoje, dia 1 de
Outubro, celebra-se o dia da Música um pouco por todo o espaço público e dentro
daqueles a quem ocorrer lembrar-se de tal celebração. É certo que a música nos
acompanha, nos empurra, nos segura e adormece, mas ela não é a nossa melhor
amiga. Porque as palavras pesam e as memórias se associam, Ela se entrega e se
nos oferece, deixando que a escolhamos ao sabor dos nossos mais obstinados
momentos. E se Ela nos mima e nos complementa em demasia, cabe ao Silêncio o
lugar de nosso melhor amigo. É este o “strangest friend” de que falam os a
Jigsaw no single de apresentação do novo álbum “Drunken Sailors & Happy
Pirates”.
E é na comunhão
deste estranho amigo que nos temos vindo a conhecer, a esquecer e a
redescobrir. Sabendo que se as palavras falham temos de as deixar. E fartos do
barulho não podemos deixar de nos entregar ao silêncio, à espera que Ele nos
diga o tanto que sabe de nós.
Apesar de ser
também hoje o dia de lançamento de “The Strangest Friend”, foi ontem que esta
celebração conjunta começou. Depois de muitas horas de trabalho, muitas
viagens, muitas emoções sem pátria e vozes sem linguagem, o João Rui, o Jorri e
a Susana Ribeiro fazem agora o que de melhor sabem ser capazes: dão-nos música!
E sim, que seja subentendido: dão-nos as melodias e as baladas que nos
rejuvenescem o coração, mas também nos atiram para um labirinto de onde não
sabemos sair, ludibriando-nos com palavras que de tão melancólicas, simbólicas,
autênticas e pessoais, apenas vemos caminhar à nossa frente.
Mas deixemos o
corpo do álbum para depois... Dizia eu que a celebração tinha tido início ontem
com a gravação do videoclip do single. Um dia passado numa casa em que o silêncio
se fez ouvir sob a forma uma luz imponente que nos visitou. Pelas mãos do
realizador António Ferreira essa luz foi desconstruída e distribuída com a
mestria que lhe conhecemos e momentos singulares se viveram na presença dessa
visão. Assistido pelo Nuno Portugal e o Leandro, o trio esteve incansável no
compromisso entre a rigidez de um trabalho técnico e a presença de um conjunto
de verdades que se sobrepõe.
Resta-me
agradecer: aos a Jigsaw pela música, pelo tempo, o conhecimento, a amizade e
irmandade e ao António pela oportunidade de ter visto a luz a desenhar-se.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





































