outubro 13, 2009

Incognita Series I





8 Oct 09
Esta é a primeira das crónicas que surgirão todos os meses em lugares indeterminados, algures entre Glasgow e Lisboa.

Estou no aeroporto de Luton a tentar encontrar as palavras certas para descrever a ânsia que vai tomando conta de mim à medida que me aproximo de “vocês”… mas nada sai, para além de uma mistura de vocábulos em portugalês que não me atrevo a redigir. No meio desta confusão ocorrem-me palavras que nunca confundo – nomes próprios e nomes colectivos e uma série de outras palavras icónicas, como pão, café e sagres.

Voei acompanhada de Kant em busca de uma sensação familiar que me afastasse do medo. De facto, o medo, per si, não constitui um problema – o avião em chamas não me aterroriza; angustia-me mais o amor que a morte – mas facto é que ao questionar os limites da lógica de associação de palavras me deparo com uma série de imagens sem nome próprio que vivem apenas no imaginário colectivo.

Nomes próprios – Mano, João e Susana (perdoa Mané mas ainda estás em portugalês); nomes colectivos – família e amigos. E com isto dizer que perdi a noção de fronteira, que como o meu amante dizia isto de um dia ter a relação mediada por um conjunto de pixéis e no outro estar perto de, a falar com, a tocar, a sentir, a cheirar… distorce a noção de tempo. Não sei agora bem quanto tempo demorarão estes dois anos. Não sei a que horas jantar ou quando parar de trabalhar… e não consigo ouvir música desde que daí parti.

Não vos oiço desde que aqui cheguei. Explico-me a tentar contrariar um sentimento de nostalgia que de momento renego. Se o Lobo tem alguns meses para muitos compreenderão que, para mim, tem anos e histórias de silêncio. Estou ansiosa com o presente e o presente que já me deram foi fazerem-me ouvir de novo. As novas melodias acordaram-me e por isso obrigada!!!
Sofia Silva

outubro 08, 2009

I still have stories to tell :: O Castelo - Franz Kafka

Há sempre uma história engraçada por trás de um livro. Nem que seja o sítio da prateleira de onde se encontrou. Há-de haver pelo menos uma boa história por detrás dessa prateleira. Talvez um bilhete ou uma dedicatória. E se não é aí, então há-de haver alguma nas primeiras páginas do livro.
E já que a vida vai andando em círculos, começo por dizer que detesto maus tratos aos livros: Já que eles são bons amigos, nada justifica a tinta azul a sublinhar passagens nem folhas dobradas. Pelo menos as que não foram dobradas pelo passar incauto das mãos em frenesim à procura do que espera a página seguinte… também há sempre uma boa desculpa para quase tudo.
Antes de prosseguir, detenho-vos apenas no uso da palavra “história” em detrimento de “estória”. “História”, de acordo com os acordos ortográficos, tem uma diferença da “estória”, mas para mim ela não existe: a ausência da dita “estória” dos compêndios de História minimiza-a ou torna-a menos História? Não me parece. Sou dos que hão-de escrever “actor” com “C” até que a loucura me leve o que restar de sobriedade. Se pudesse, escrevia farmácia com PH; é como a minha mãe diz: “esses acordos são para malandros”. Portanto se passar alguma história com ausência de H é culpa do corrector ortográfico e de noites mal dormidas.

Então sigamos para a história de como este livro me veio parar às mãos.

Foi-me passado para elas por um bom amigo meu que me tinha dado boleia até à Praça da República. Ao sair do carro disse “olha cá tens”. Como eu lhe dissera que estava interessado em ler Kafka, agradeci-lhe o empréstimo e fui-me sem demoras.
Já em casa, encontrei a tal dedicatória/nota “I’m 18, I need my heroin. M.A.” fazia sentido, uma dedicatória com parte de uma letra dos Suede (Dog Man Star) já que o meu amigo tinha um gosto particular por eles. Pelo menos tinha-o na altura, antes de partir para a Índia (mas isso é outra história).
Eu vinha de uma fase em que tinha lido praticamente tudo o que pude encontrar em alfarrabistas do Dostoyevsky – sim, alfarrabistas, porque na altura não se entrava numa livraria para comprar livros dele. Ou se comprava “o Jogador” ou então nada feito. Os direitos de edição em solo nacional do espólio do Dostoyevsky estavam na altura em posse da defunta editora “Civilização” (ainda há aqui outra boa história acerca disto com o mesmo amigo M.A. na Feira do Livro em Lisboa).
E é importante frisar de onde eu vinha, porque assim se percebe onde eu me ia meter: é que o Dostoyevsky é torto, mas o Kafka é torto de uma maneira torta. Diabos… as primeiras páginas do “Castelo” deixaram-me no mínimo confuso.
Desisti do livro antes de chegar à vigésima página. Pelo menos tentei… não era para mim. Naquela altura…

Passados alguns dias, talvez semanas, isto para dar o espaço imaginário de reflexão necessária, levei o livro para o devolver ao M.A., agradecendo-lhe outra vez o empréstimo. Mas então ele retorquiu “Esse livro é teu. É a tua prenda de aniversário” e então, rapidamente o meu cérebro fez as adições suficientes de quem não está mais na antecâmara do erro, mas sim de quem comprou o bilhete só de ida para as terras onde ele habita. 2 +2 = 5. Claro, o meu aniversário dos 18 anos tinha sido apenas há semanas… mais uma vez, fazia sentido. Então regressei com o livro a casa e ele a olhar-me de soslaio, com aquele olhar de quem… enfim… sabe o que não devia…
Alguns dias depois voltei à carga, mas dessa vez de peito aberto. E então o livro cicatrizou-me. Ainda hoje me lembro da sensação de cansaço da personagem central, o Joseph K.; das horas que eram dias das viagens que fazia ao Castelo; e talvez seja ele a personagem central... Mais que a história, ficaram-me as sensações. Acho que para mim o Kafka toca-me dessa maneira. E depois, ler cada uma das passagens rasuradas resgatadas ao silêncio pelo eterno “editor” Max Brod que davam ainda mais mil e um sentidos ao Castelo... Não me lanço sobre a própria história que o livro encerra, mas urjo-vos à leitura dele. Tem lá segredos. Tem lá segredos…

E já que a vida anda em círculos, anos mais tarde emprestei o livro a outro amigo, ao R., que numa festa onde também eu (infelizmente) estava, deixou que o livro perecesse dentro de uma taça cuja descrição não avanço para não atormentar a minha memória. E é isso que resta deste livro com aquela querida dedicatória: a minha memória.
Como detesto maus tratos aos livros. Passagens sublinhadas e folhas dobradas…

Joao Rui

outubro 01, 2009

Dia Mundial da Música

© Sofia Silva, Lisboa Andrógina, 2009

Por toda a parte se comemora hoje o Dia Mundial da Música, data tão inspiradora quanto esta luz dourada que perpassa as primeiras folhas secas do nosso jardim. Também a família a Jigsaw se sente inspirada. Inspiram-nos estes dias quentes de Outono, os novos instrumentos que a pouco e pouco vão chegando às nossas mãos, as letras que têm andado à procura de uma canção, as reformas de bricolage a que a Casa Azul tem assistido. E a inspiração, quando nasce, é já a promessa de uma nascitura partilha. Falemos então de partilha e de inspirações sazonais.


A partir de hoje, o nosso espaço irá viver algumas mudanças.


De Glasgow, receberemos mensalmente uma crónica da nossa fotógrafa e amiga e irmã Sofia Silva. Aguardamos ansiosamente o seu olhar, ora ferino ora meigo, em palavras e imagens.


Ao longo do mês, cada quinta-feira acolherá uma rubrica diferente.
Partilharemos as narrativas literárias ou cinematográficas que vão marcando os nossos dias na rubrica “I still have stories to tell”. Porque a vida é lá fora, “I will leave these walls behind” acompanhará os nossos passos fora de casa e sugerirá outros tantos. Do tempo arrancado aos dias que se passam em viagens virtuais, sempre intermináveis, “The endless roads where my feet stand”. E, finalmente, “Hear them on hi-fi stereos” será inteiramente dedicada a essa arte ou bênção ou feitiço a que comummente chamamos música!

Sintam-se confortáveis para entrar e dar uso às nossas poltronas. A garrafa de vinho já está aberta e, daqui a algum tempo, acenderemos a lareira da cozinha. Este espaço é vosso também. O tempo fica lá fora. Entretanto, de braços concentricamente elevados e, entre gargalhadas e olhares de amêndoa, brindemos à música! :)



família a Jigsaw

setembro 02, 2009

Setembro


(Picture by Susana Ribeiro)


Setembro é o mês de todas as partidas. As desejadas e as adiadas, as secretas e as já há tanto anunciadas…

Desenterramos da areia as andorinhas do nosso Abril, largamos ao céu as âncoras de Agosto, abrimos os braços de linho às ondas de Novembro. Sabemos bem que aquele esboço no horizonte poderia ser Ícaro de asas unidas, como lembra o poeta do cachimbo, “para que nenhum sol as desfizesse”.

É de sal a espuma fresca aos nossos pés e de areia macia as lágrimas que guardamos nos bolsos.

Alguém tatuou na pele “A vida não é um destino, é uma viagem”. Alguém espera de malas feitas o próximo voo. Alguém junta letras com a minúcia de quem resolve um puzzle gigante. Alguém arranca papel de parede com os dentes para desventrar o passado. Alguém passa noites em claro a rabiscar uma estratégia bélica a que chamou “Futuro”. Alguém acredita.


É de música salgada cada um dos nossos olhos e não precisamos cruzá-los, porque partilhamos o mesmo horizonte… azul… imenso…

Susana

agosto 23, 2009

Música no sopé da serra


(Pictures by Susana Ribeiro)

Podia dizer "já fui feliz nesta terra" sem qualquer desvio da verdade. Infelizmente desta vez não houve caminhada pelas aldeias serranas, não se escutou o silêncio que vibra em Sto António das Neves, não bebi água fresca na fonte do Terreiro das Bruxas, nem passei pela casa blairwitchiana da Ti Joaquina. Meu deus, quantas memórias à espera de um reencontro... A serra da Lousã é, sem dúvida, um lugar com uma energia muito especial. Foi difícil não soltar o lobo em plena serra, deixá-lo ir... mas, no sopé, havia um palco à nossa espera, amigos já de braços abertos e gargalhadas em lista de espera. Obrigada a todos os que acompanharam o regresso do lobo à estrada. :)

(*Terreiro das Bruxas, eu prometo voltar!)

Susana




save

agosto 17, 2009

"Hi, This is For You"

Photobucket
© Marie van Vollenhoven 2009
O silêncio ou pelo menos parte dele, é boa companhia nos abismos insondáveis da solidão. E há um certo vagar, um certo encanto que só a si pertence – e também – por vezes, nessa sensatez. Se foi o torpor que manietou a tinta durante todos estes dias, então é dele que agora regressamos. Mas ausência não é imobilidade, é certeza de desconhecimento dos filamentos dos segredos. Este hiato junto à porta aberta apressadamente da câmara escura onde vamos revelando cada uma das voltas da agulha com que urdimos as vestes do lobo, terminou agora. Vamos soltar as rédeas do incêndio… como os pirilampos à porta da casa azul. Há tantos anos que não me visitavam estes estilhaços de vida incandescente.
Há tantos anos que me visita esta saudade de não sei bem o quê.
“Tanto quanto sei, vou viver para sempre” dizia ele encostado à porta de saída – como quem aprecia a ironia do tempo perdido; como quem sabe que este pouco tempo que resta é mel de pólen de flores colhidas antes de época – e nisto a imortalidade nada mais que cerra os olhos à nossa condição: somos pó de estrada que mal tempo tem para se habituar aos calcanhares do tempo.
Talvez seja a saudade de não saber mais, ou demais.
Depois de insuflar a casa azul de nova cor, conseguimos condensar uma mão cheia de metáforas numa única divisão: o Pedro atrás de uma lente, sob o olhar atento da Sofia, com o Carlos de tesoura e sorriso em punho criaram os bastidores daquilo que também se chama o vídeo do Red Pony – mas agora adianto-me em demasia, pois isto terá o seu lugar – mas mais adiante.
Então adiante.
Há sempre mais uma história para contar, sobretudo para quem as gosta de guardar: em meados do mês passado, num jardim do qual não sei o nome, perto do museu de história natural, eu e o Jorri, sentados à mesa, mostrávamos pela primeira vez à Sofia a versão final do novo vídeo quando subitamente uma pessoa abordou a nossa mesa. Quase em silêncio, entregou-nos um desenho acompanhado de menos palavras que emoção “hi, this is for you” e eu que abomino o tráfego das grandes cidades, encontrei aqui recompensadas as três passagens em volta do marquês para ali chegar. Só passados dias, talvez semanas, em que o Jorri teve este desenho guardado dentro de um livro é que vi a morada escrita no canto do desenho http://dailydrawing.nl/ . Então, a pessoa do qual havíamos guardado apenas vaga memória de feições tem agora um nome e uma história contada em desenhos e tinta. Outra tinta. Obrigado Marie.
Agora que os pirilampos são tantos que se amassam contra a porta da casa azul, a estrada ganha de novo contornos lúcidos. Vamos regressar aos calcanhares que aqui não se quedam. Ali, à beira da curva, já nos espera o Lobo, que nesta próxima investida nos acompanhará a uma serra próxima. É território dele. É território nosso.
Joao Rui

“When they thought I was running away, I was merely gathering speed, my friend”

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junho 30, 2009

o lobo das neves e a casa azul

olá, alcateia, venho por este meio agradecer-vos por todos os fantásticos momentos que já me proporcionaram, se a descida da montanha em direcção ao vale cortado pelo mondego foi em tempos um risco ou uma incerteza, é agora uma aposta ganha virada para o futuro. Neste mesmo vale encontrei pessoas como eu, dedicadas, humildes e com o BLUS dentro delas :D! Achei na casa azul um novo covil de inspiração, um novo lar e uma nova familia, enfim ... este é o balanço do primeiro trimestre junto da alcateia parece que foi há uma eternidade, mas não ... passou-se foi muito em apenas 3 meses!

obrigado por tudo haauuuuuuuuuuuuuuuuu
ManeThe wolf of the snow and the blue house
Hello Pack, I come through here to thank you for all the fantastic moments that you have given me. If coming down the mountain directed to the valley that's cut by the mondego was in times a risk or an uncertainty, now it's a won bet, turned to the future. In this same valley, i've found people like me, dedicated, humble and with the BLUS inside them :D! I found in the Blue House a new den of inspiration, a new home, a new family, oh well... this is the balance of the first quarter together with the pack. It seems like it was an eternity ago, but no... it was just that so much happened in only 3 months. thank you for everything
haauuuuuuuuuuuuuuuuu

Mane

junho 25, 2009

A Casa Azul #0

Mano bebé

Hoje é um dia como outro qualquer.

Hoje é dia de S. João.

E isto depois de um fim-de-semana comprido, demasiado comprido: com mais segundos do que horas e menos tempo que espaço.

Se o sábado foi da minha ausência para as bandas do mar azul, o domingo foi o de abraçar o azul da casa; De lhe dar novas recordações e lhe agradecer mais uma vez a discrição - sempre que vamos embora parte de nós fica lá dentro. E agora que o tempo passa tão veloz, só tenho a nitidez de anos longínquos que esparsamente me vêm visitar. Agora talvez mais. É a vontade de querer seguir em frente sem nada deixar para trás - eu tenho medo do que posso deixar para trás. E sei que devia ter sempre tudo preparado para partir ainda hoje. Mas se tudo o que somos é passado e promessa de futuro, se eu partir hoje não levo de mim senão promessa de tudo e recordação de nada. E eu tenho medo do que já deixei para trás.

Contou-me a minha mãe que hoje é o aniversário da casa azul: eu tinha seis meses e tudo era promessa.

E hoje que é um dia como outro qualquer

E hoje que é dia de S. João

A casa canta baixinho a voz que eu perdi.

JoaoRui


Blue House # 0
Today is a day like any other.
Today is St. John’s Day
And this after a long weekend, too long: with more seconds than hours and less time than space.
If Saturday was of my absence to the side of the blue sea, Sunday was to embrace the blue of the house; to give her new memories and thank her again for her discretion – whenever we leave, part of us remains inside. And now that the time passes so fast, I can only remember well the distant years that sparsely come to visit me. Maybe more now. It is the desire to want to move forward leaving nothing behind - I'm afraid of what I might leave behind. And I know I should have everything ready to go today. But if all we are is past and promise of future, if I leave today I’ll take from me but promise of everything and memory of nothing. And I'm afraid of what I already left behind.
My mother told me that today is the anniversary of the Blue House: I was six months old and everything was promise.
And today that is a day like any other
And today that is St. John’s Day
The house whispers softly the voice that I lost
JoaoRui

junho 17, 2009

A Casa Azul #5 (by Flávio Torres)

Dia 10-06-2009 Quarta-Feira
Deixo a Beira Interior com destino à casa do lobo, um sol desmaiado acompanha-me nesta viagem curta e expectante rumo a oeste. O asfalto traça as suas linhas a 140Km h seguindo um desenfreado labirinto de vegetação, duas horas depois avista-se a cidade que me espera, “Coimbra”. Após alguns quilómetros, o lobo uiva sem luar e a casa azul surge por entre um terreno verde quente e idolatrável. Ali uma agitação frenética invade todos os presentes, uma equipa prepara o teledisco “Red Pony”, outros aventuram-se em arrojadas tarefas de bricolage, pintura, carpintaria, enfim… a casa azul transforma-se ficando cada vez mais azul. Prepara-se um Churrasco no qual o João é mestre a adicionar um tempero bem picante e acompanhamo-lo com cerveja fresca saborosa. Os trabalhos na casa continuam durante a tarde, no primeiro andar monta-se um mini-estúdio acolhedor num quarto sereno, para que se comece a gravar “The Hill Sessions”. Lá em baixo o frenesim continua dedicado a pormenores, ao cenário do teledisco, e em som ambiente toca um disco de Eels, a música que toca é “Flyswatter”.
O cansaço é notável em todos, pois a meia-noite já se fez soar. Decidimos deixar a casa azul e procurar um recanto que nos sacie o estômago… amanhã é outro dia de magia onde o covil do lobo enfrenta novos desafios.

Dia 11-06-2009 Quinta-Feira

Hoje o dia é quente e sereno, são 11:30 da manhã e encontramo-nos a caminho da casa, é uma viagem de meia hora cheia de boa disposição, com o cheiro do passado que acolhe aquela estrada. Por ali passam pessoas sem modas, que transpiram nos seus passos sem pressa e com remanso. Chegados ao covil, Jorri já se encontra por lá inquieto nas arrumações e limpezas necessárias ao conforto da alcateia, na sala do cenário discutem-se ideias e trocam-se pensamentos elaborados e eu dou uma vista de olhos num Harmonium que se distingue na sala de ensaio, “que som encantador !!!” . O cheiro a churrasco e especiarias invade o nosso apetite e juntamo-nos todos na cozinha para uma boa refeição, o picante está no ponto (João, é assim mesmo!). Seguido de um café, acompanhamos uma abonada bagaceira que nos deu vaidade para comentar o trabalho ali exercido. No decorrer da tarde, dedico o meu tempo a “The Hill Sessions”. A Susana regista o som do seu violino, executando um tom doce/melodioso com um vibrato arrepiante que me deixa iluminado e com poucas palavras. O comboio passa lá fora e os cães acompanham o seu ritmo, ralhando a sua pressa. Por entre a janela, a noite visita-nos o tempo passa a correr….

Dia 12-06-2009 Sexta-Feira
Neste dia, eu e o Mané dirigimo-nos para a casa azul já no final da tarde, com o intuito de por ali pernoitar e trabalhar numa enorme sessão de gravação. Ao chegarmos lá, os afazeres continuavam - João, Jorri e Susana, entre todos os elementos da equipa de filmagem, lá estavam, dedicados às tarefas que o lobo lhes tinha incutido. Após uma boa refeição e um bom dedo de conversa com todos os ajigsawianos, eu e o Mané aportámos no 1º andar para iniciarmos a sessão, o objectivo era incluir percussões e ritmos ao que já estava feito. Entre sons e pormenores criativos, tragávamos gin cola para que o feeling permanecesse daquela forma por muito tempo, e take após take o resultado ia ficando espantoso, fumávamos cigarros atrás de cigarros com um raiar de contentamento. 6 da manhã, o comboio passa, os cães e outros animais ficam agitados com o nascer do dia, ouvem-se já passos no outro lado da estrada. Nós estamos contentes e esgotados, assim como as paredes da casa azul, reclamamos de um bom descanso. Mesmo ali ao lado temos os nossos colchões improvisados a uivarem por nós, não tivemos tempo para mais qualquer tipo de comentário, o sono invadiu-nos completamente…mas lembro-me que dormi feliz.
Dia 13-06-2009 Sábado
Acordámos com um bater penetrante na porta principal de madeira esgotada, olhei para o relógio e passava pouco das 11. Pensava para mim que a minha jornada por ali estava a terminar pois era o meu último dia. Enquanto batiam, uma voz chamava por nós, era o João e o Jorri, já prontos para mais um dia. O Mané desceu para lhes abrir a porta, pois a chave tinha ficado em nossa posse, eu fiquei um pouco mais para acordar em mansidão, aproximei-me da janela e deslumbrei a vista da manhã com um sol radioso. Mais tarde chegou a Susana e o Zé Pedro e por ali almoçámos os seis, pacificamente auxiliados de um café conduzido por uma aguardente e algumas experiências numa resonator. Este sábado dedicámo-lo praticamente a “The Hill Sessions”, Susana inclui mais um instrumento com um som brilhante idêntico a um sino e após essa adição despedi-me do seu encanto. Depois de acomodarmos uma cervejas, João faz magia com a sua voz quente num cover de Johnny Cash e incluímos também harmónica num tema de Bob Dylan. Enquanto a tarde avançava divertiamo-nos muitíssimo com alguns takes interessantes. Cá em baixo Jorri dedica-se à cozinha, presenteando-nos um jantar fabuloso e criativo que fica em segredo (só ele sabe a receita), este assistido por um bom vinho. Ali ficámos os quatro calmamente a provar um conjunto de sabores e a tagarelar sobre vários temas da actualidade, música e leilões… Antes de sair da Casa Azul, passeio pelas suas divisões e transmito para elas o desejo de voltar, Depois disto verbalizo um adeus, um até já, um até sempre. Despedimo-nos com um abraço e com a certeza que mais momentos destes irão surgir. Na memória ficam os bons momentos, as boas pessoas que por ali conheci, a amizade e a música.


A todos vós um desmedido obrigado.
Até breve (rock n roll) !!!
Flávio Torres


A Casa Azul #4

a primeira vez que vi o flávio "tratar da saúde" a uma guitarra, ele partilhava o palco com o nosso mané. lembro-me de pensar "mas onde raio está o resto da banda?!!!" dois tipos em cena, um na guitarra, voz e pratos de choque, o outro no baixo, bombo e tarola, e muita energia, muita cumplicidade, muito rock naquelas veias!! :D lindo!!

na semana passada, o flávio esteve em retiro criativo na casa azul que mais uma vez revelou ser exímia a urdir teias ... as de aranha e as outras, as que se refugiam no pretexto da música para apertar laços...



podem ouvir o flávio

aqui http://www.destilart.com/
e aqui http://www.myspace.com/2duques

;)

Susana

junho 13, 2009

A Casa Azul #3

Chego de manhã. Agora a Casa é um caixote de surpresas com céu e terra lá dentro. Mostram-me as traves mestras, que afinal são de cartão e repenso a história da família que tomou estas paredes de assalto... como se têm vindo a recriar!

Quatro da tarde e as nuvens entram em casa. Cheira a carvão e na mesa estendem-se as dúvidas para mais uma refeição. Esta família vive numa estação imaginária e degusta as gotas que caem como se de um sopro húmido se tratasse...

Agora é Verão. O João pensa no par de calções que vai vestir amanhã. Pensa que a Casa guardará esse segredo.
Agora é Primavera. A Susana pensa nos sapatos que lhe pode oferecer amanhã. Pensa que a Casa agradecerá o presente.
Agora é Inverno. O Jorri pensa nas paredes que tem de voltar a cobrir. Pensa que a Casa beneficiará do conforto.
Agora é Outono. O Mané pensa em despir os telhados para deixar a luz entrar. Pensa que a Casa compreenderá a confiança.

Finalmente de volta, reunidos numa mesa de cozinha. Há cebolas, feijões, abóboras e laranjas à disposição e todo um leque de culturas em fase de plantação. Fala-se do barulho dos instrumentos, dos sons que se registam em silêncio e a Casa insiste em ser o futuro, em dar as respostas que não sabemos querer.

Há quem pinte paredes para creditar o passado, outros há que pintam portas para depois as usar. A lua acende-se antes da noite e a Casa respira de alívio quando percebe que somos mais do que o que trazemos. Eu tomo o ar de volta e abalo. Em jeito de nota lhe explico que sou como gotado de resina de vida que também sei que ela tem.

SofiaSilva

A Casa Azul #2





junho 09, 2009

A Casa Azul #1

Esta semana vai ser inteiramente dedicada ao covil. A ultima vez que a casa viu tantas pessoas de uma só vez eu ainda não tinha suficiente passado para ter memória dele e o presente era uma prenda que agora eu sei que vai ser a minha companhia quando os dias anteriores forem demasiado brancos para deles eu me querer recordar.

Encostado à porta que dá para os lados da cerejeira que já não está lá, ouço os meus passos que aqui passaram no umbral ao regressar a casa; da voz da minha mãe a chamar de longe com uma voz mais parecida com a minha do que esta, do sorriso do meu pai a preencher cada um dos lados do horizonte e dos caules das flores a roçarem nos meus pés.
Devem ser estas lágrimas as que a inocência conhece.

Junto às traves mestras da casa, estas memórias vão-se tornando companheiras da nossa família que agora se une através dos mesmos acordes.
E não há silêncio no esquecimento, há apenas silêncio. E estarmos aqui dentro hoje, as memórias não se calam e já encontraram caminho até mim, até nós e até ao Lobo que nasceu aqui.

JoaoRui

The Blue House #1
This week will be entirely devoted to the den. The last time the house saw so many people at the same time I had not enough past to have memory of it and this was a gift that now I know will be my company when the preceding days are too white for me to want to remember them.
Leaning against the door that leads to the sides of the cherry tree that is no longer there, I hear my steps that passed the door back to the house,; the voice of my mother calling from far with a voice more simillar to my own than this one , the smile from my father filling each side of the horizon and the stems of the flowers rubbing against my feet.
These should be the tears that innocence knows.
Along the cornerstone of the house, these memories become companions of our family that now joins through the same chords.
And there is no silence in oblivion, there is only silence. And we being here today, the memories are not silent and have found their way to me, to us and to the Wolf who was born here.

junho 08, 2009

Gaia

Foto Cátia Gusmão 2009


Regressamos ao norte em fragmentos. Primeiro os 4, depois os dois, de seguida os 3 e por fim apenas os dois, mas a chuva, essa esteve sempre presente.

Desta feita, que apenas eu e o jorri estivémos presente, levámos os ecos dos anos passados; da raíz de todo este delírio. Só que agora vamos mais sós, porque a alcateia já é fruto de outras veias que se entrelaçam nas nossas: se a mim me falta uma das mãos, ao jorri falta um dos pés.
Os blues vão unindo a distância.
miss you my boys.

p.s. sem esquecer claro de dar os parabéns à rita que irá receber as cartas do barqueiro em casa, de mandar um beijo para a cátia, para a sara e respectivas companhias e um abraço para o Ivo.
Need some gospel for the ride?

JoaoRui

Gaia
We're returning back to the north in fragments. First, us 4, then 2, after that the 3 and finally only the two of us; But the rain... she was always there.
This time, that only I and jorri were present, we took with us the echoes of the old years; the root of all this delirium. Only now, we are more alone, because the pack is the fruit of other veins that are are intertwined: If i lack one of my hands, jorri is missing one foot.
The blues are joining the distance.
miss you my boys.
p.s. Let's not forget of course to congratulate rita for her birthday,who'll receive the boatman's letters in her house, to send a kiss to Catia, to Sara and their companies and a hug for Ivo. Need some gospel for the ride?

junho 02, 2009

Lisboa, Lisboa (Alfragide e Cascais)





(clique nas fotos para ampliar)

Há um lobo em cada um de nós; ou pelo menos um segredo que pertence apenas a seu dono.

Em cada concerto é como se fôramos uno com os olhos que nos esperavam e largássemos dos segredos as nossas mãos.

É o tempo suspenso que habita entre acordes e na cumplicidade das palavras. Quando nos separamos fica sempre parte de nós para trás e que apenas iremos conseguir reencontrar um pouco mais adiante. Acho que vamos reforçando uns laços e criando outros novos – e assim vamos ficando enlaçados com meio mundo.

Voltamos sempre com uma mão cheia de imagens:

- Os soaked lamb a tocar na “Geraldine” (Gito, quando chegares a terras germânicas, envia endereço para que o Jack não se perca até ti).

- O Antonio Pires à porta do Alegro em Alfragide numa conversa da Petra, que agrilhoou a família a 2 musicas nossas .

- O Zé e o Len que chegaram, como de costume, atrasados, mas a horas..

- A Sardinha em Paço de arcos que foi espancada da brasa até ao meu prato.

- O sono que vem por vezes cedo de mais, excepto para o Jorri

- O johnny, o Claudio, a Eduarda, o Luis e o António Coelho no calor de Cascais.

Vamos embora de alma cheia e de segredos ainda mais pequenos

JoaoRui

Lisboa, Lisboa (Alfragide and Cascais)

There is a wolf in each of us, or at least one secret that belongs only to its owner.
In each concert it’s as if we were one with the eyes that expected us and we took our hands off our secrets.
It is the suspended time between chords and the complicity of the words. When we part we always leave a part of us behind that we will only find later in time. I think we strengthen some ties and create some new ones - and so we are being linked with half a world.
We always have a handful of images:
- The soaked lamb playing in the "Geraldine" (Gito, when you get to Germanic lands, send the address so Jack can find you).
- Antonio Pires at the door of Dolce in Alfragide in a conversation about Petra, who imprisoned his the family to 2 of our songs.
- Ze and Len who arrived late, as usual, but in time...
- The Sardine in Paço tde Arcos that was beaten from the fire to my plate.
- Sleep which is sometimes really quick, except for Jorri
- Johnny, Claudio, Eduarda, Luis and Antonio in the heat of Cascais.
We go with a filled soul and even smaller secrets…


Porto e Braga - O Beco

Este foi um fim-de-semana de amigos; a direcção foi a norte, ao albergue do nosso amigo Jaime, onde nos esperava debaixo de uma chuva teimosa.

O lobo foi recebido com uma iguaria secreta do Jaime: uma receita especial oriunda de experiencias deste nativo: é uma bebida chamada “Beco”, tal como o albergue: oriunda do mel e outros segredos insuspeitos.

Já não me recordo se durante o concerto chovia como à tarde – com algum vagar o beco encheu-se de pessoas que se aglomeraram num espaço não maior que o que o nosso olhar abarcava.

Foi assim que lançámos o lobo à multidão… sequioso.

Foram cravadas flores nas paredes e velas em redor, mas desta vez não pudemos contar com o nosso lobo da neve (marco silva) que se ausentou para as bandas da Beira.

Depois destas festividades ainda houve tempo para passear a noite de Braga, para ouvir os sinos de outros tempos e as ruas apinhadas de memórias que agora também trazemos nos bolsos.

Domingo rumámos a Matosinhos à Fnac do Norteshopping onde reencontrámos 3 boas amigas e uma família que também acolheu o lobo no seu seio e se tornou alcateia.

Estes dias são tão curtos, mas a estrada é tão longa…

Um dia destes trazemos todos os membros desta alcateia de volta para o nosso covil…

Agora que o sono se apodera dos músculos, regressamos a casa…

JoaoRui

Porto & Braga – The “Beco”

This was a weekend of friends; the direction was north, to the shelter of our friend Jaime, where he was expecting us under a stubborn rain.

The wolf was received with a cheer of Jaime’s secret sweet: a special recipe derived from his native experiences: it is a drink called "Beco" as the place itself: made of honey and other unsuspected secrets.

I no longer remember whether it was raining during the concert as it was in the afternoon. Pouring… - slowly, the “Beco” was filled of people who crowded into a space not larger than what our eyes could see. It was like this that we sent the wolf to the crowd... thirsty.

Flowers were sown to the walls and candles were lit all around, but this time we could not count with our snow wolf (Marco Silva) who had to part to the Beira.

After these festivities we still had time to walk the night of Braga, to hear the bells of other times and the streets crowded with memories that we now bring in our pockets.
Sunday we left to the Fnac of Matosinhos where we met again 3 of our good friends and a family that also received the wolf in their midst and became part of the pack too.
These days are so short, but the road is so long..

One of these days we will bring all members of the pack back to our den ...

Now that sleep seizes our muscles we return home...

maio 15, 2009

novas fotos na galeria

(by João Marçal)



A nossa galeria de fotos do myspace, relativa à "like the wolf tour 2009" tem vindo a ser actualizada. têm andado atentos?!! ;)